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sexta-feira, 19 de julho de 2013

#43. Diários de bicicleta/The bicycle diaries: Nuevos Caminos

(English version below)

Saw you at a party
You asked me to dance
Said music was great for dancing
I don't really dance much
But this time I did
And I was glad that I did this time

And the song said "Let's be happy"
I was happy
It never made me happy before
And the song said "Don't be lonely"
It makes me lonely
I hear it and I'm lonely more and more

Where I belong, where I belong (Yo La Tengo, "Last Days of Disco")


Percebo agora que o Caminho não é só chegar. É saber como partir.
Nada é pra mim mais difícil que isso.

Estive em Santiago por três dias inteiros. Um coração levinho. O tempo não existe. Aqui estou eu, nessa cidade linda, dormindo numa cama digna de novo, e todo dia eu saio escondida caminhando sozinha pra assistir os peregrinos que chegam da à catedral. Sento e assisto. Gosto de ver todo mundo feliz. Eu sei como é, eu sou dentro da sua alegria, você esteve e é dentro da minha.
Depois de 2 anos de inverno suíço, nesta viagem eu tive que reaprender de novo como encostar em gente. E nos meus últimos dias no Caminho de Santiago eu literalmente beijei todo mundo que apareceu pela frente, todos os ciclistas foram religiosamente abraçados e esmagados por mim, "eu te amo" pra geral nos albergues, lágrimas de amor para todos os bikers, e meu inglês, meu francês e meu espanhol macarrônicos nunca estiveram melhores. Não tenho mais medo de nada, e inflo com orgulho meu peito de pessoa bizarra, emocional e pegajosa. (Não existe no mundo nenhuma palavra que expresse minha gratidão eterna à Espanha por ter me curado do coração gelado que eu cultivei em Genebra). Não quero estar em nenhum outro lugar. Quero que tudo pare, e quero viver pra sempre aqui, dentro deste segundo que é o momento em que eu cheguei em Santiago.
Até que chega o dia em que meus amigos bombeiros das Canárias têm que ir pra casa.
Insuportável. Nem eu mesma me aguento hoje. Estou chata, triste, coração partido, me sentindo traída, com vontade de morrer, olhando o relógio a cada 15 minutos. Ligo assim que o avião deles chega em Tenerife, desesperada, simplesmente pra descobrir que escutar a voz dos dois me deixa mais deprimida.
Não consigo dormir. Não consigo ficar acordada. A cerveja me dá enjôo e vontade de chorar.
Porque foram esses meninos  que me enfiaram contra a vontade todos os dias nos rios mais gelados do mundo e fizeram meu joelho sarar. David pedalou montanha acima lado a lado comigo, falando das Canárias e da vida, e foi com ele que eu cheguei nos lugares mais altos do Caminho de Santiago. A gente comeu polvo à galega e bebeu vinho, eles me fizeram rir, me ensinaram a limpar a bicicleta de manhã, encararam hostel trash, e eles me viram na minha mais alta fedentina e engraxamento ciclístico sem nunca deixarem de me amar. Aliás: sempre falaram que eu e Judi éramos as ciclistas mais lindas do mundo.
Agora eles foram embora e eu não sei quando e se vou encontrá-los de novo. Não sei o que fazer. Não tem mais Santiago, estou perdida, abro o mapa-múndi e não consigo escolher o meu próximo destino ciclístico no planeta Terra.
Olho pra Judi, devo estar com aquela cara de cachorro abandonado na chuva, e pergunto se posso acompanhá-la até Porto. A ideia é matar tempo em 250km light e esperar a inspiração de nosso Senhor Jesus Cristo. Se ele ajudar, chegando em Porto eu já vou ter decidido e comprado uma passagem de avião.

Somos agora apenas eu e Judi on the road. Não sei como é pra ela, mas eu nunca me senti mais sozinha.


*Nós 4 em Cycleland, prontos pra sair e pegar as montanhas
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Saw you at a party
You asked me to dance
Said music was great for dancing
I don't really dance much
But this time I did
And I was glad that I did this time

And the song said "Let's be happy"
I was happy
It never made me happy before
And the song said "Don't be lonely"
It makes me lonely
I hear it and I'm lonely more and more

Where I belong, where I belong (Yo La Tengo, "Last Days of Disco")


I realize now that it is not only about heading all the way to Santiago. It is also about learning how to let it go.

We were in Santiago for three days, and in these three days my heart was nothing but joy. Timelesness. Here I am, sleeping in a proper bed, resting, and every single day I walk by myself to the cathedral to watch the pilgrims who are arriving. "I've been there", and I feel part of their happiness, I am inside their contentment, they are inside of mine. Music, friends and sun... After 2 years of cold, long winters, I had to learn again how to touch people, and in this camino I kissed literally everyone of the cyclists I met. I told everyone that I loved them, I hug, and kiss everybody again, and my English is perfect, I do speak French and Spanish, I stopped being afraid of staying close and being the crazy emotional person I am. (Thanks, Spain, you definetely fixed me!) I want nothing but that. I want to stop time      now          and live eternally inside this very one second when I first got my feet in that city.
But it came the day when our firefighter friends from the Canarian Islands had to leave back home.
I suddenly became hopeless. Jesus, what a miserable day. Broken-hearted. Betrayed. Time now is fucking slow and I call them as soon as I realize their plane landed in Tenerife. I regret right away: hearing their voices makes me even more depressed. Nothing can do with my grief.
These guys were the ones who forced me into the ice-cold rivers and helped me to fix my knee. David was riding by my side in the last two days of the camino, the two of us up the worst mountains, and he was the one who shared with me the pleasure of arriving up there. We ate octopus and drank wine, we laughed, we cleaned our bikes in the morning, we struggled with bad and good hostels in our way, they saw me eating like a dinosaur and wearing my worst stinky clothes, but they never ever stopped loving me. We used to split going downhill, but we always knew we would finally get together in the end of each road.
Now they are gone and I don't know when and if I will see them again. I don't know where to go next. I am lost, so I check the world map to choose the next location to bike. Only biking can fix me. But I simply can't make any decision. I can´t find a place in the planet where I felt like cycling.
So I look at Judi with my disgusting, wet-dog-face and ask if I can I follow her 250km into Portugal.
The idea now is to kill some time riding until Porto. There is a main airport in that city. May God help me with inspiration - hopefully I will be able to make a decision and arrive in Porto with a plane ticket to take me and my bike to ride somewhere.
Now it is only me and Judi on the road. I don't know about her, but I have never felt more lonely.


*The four of us in Cycleland, early morning, getting ready to face the mountains




quinta-feira, 11 de julho de 2013

#42. Diarios de Bicicleta/The bike diaries> Random Access to Memories

{English version below}

Santiago de Compostela
27 dias, 2010km em bicicleta

Cansada, tao cansada. Minha perna doi, meu Jesus, mas pelo menos meus joelhos estao bem.
E se voce me der uma cama e meio quilo de macarrao eu ja fico feliz.

Chegar no fim da peregrinacao e uma sensacao tao forte e tao pessoal que eu nao me atrevo a descreve/la aqui no blog. O unico jeito de saber e vindo pra ca.

Sem ilusoes. E bem trash ser cicloturista e vegetariana. Carreguei 1kg de whey protein por 2000km, e alem de pesada, ela fede, e feia e tem gosto do mais puro mal me quer. Mudei minha dieta e comecei a comer frutos do mar na Espanha, porque tenho arrepios so de pensar em enfiar um monte de porcaria processada no meu corpo todoos os dias.
Mas nao vem sem custo.  Fico triste de saber que estou comendo polvo, camarao e lula numa viagem que tem um que de espiritual. Saudades das minhas lentilhas queridinhas.

A melhor novidade da viagem foi que o Daft Punk lancou um disco maravilhoso com um hit que pegou geral na Europa. Em vez de entrar no mercado e ouvir Ai Se Eu Te Pego, em todo lugar que eu estou ta rolando Get Lucky. Melhor do que isso e impossivel.

Meu coracaozinho hipster chorou quando eu quebrei os meus lindos Ray Bans. Por outro lado, meu coracao ciclista deu um sorrisao no dia que eu adquiri meu primeiro par de oculos esportivos. Eles sao lindos, laranjas, confortaveis, diminuem a irritacao no meu olho. So que eu me sinto tao ridicula neles que nao me atrevo a olhar no espelho.
Voce pode sair do hipster world, mas ele nunca sai direito de voce.

Como diz a Judi, meus dias de gatinha ja se foram ha seculos. Bronzeado bermuda e camisetinha na alta, unhas sem esmalte ha dois seculos, e os meus cabelos... sem comentarios. Pra nao dizer nada da sobrancelha e do cheirinho das roupas de ciclista lavadas com xampu.
Mariana, mas pode me chamar de caminhoneira da bike, baby.

Mas nada, nada paga o que a bike faz pelo seu corpinho.
O paraiso e este lugar onde voce perde peso continuamente comendo 4000 calorias por dia.
Bicicleta querida, e por essa e por outras que eu nunca vou deixar de te amar.



Santiago de Compostela
27 days, 2010km on my bike 
I feel tired. I feel so tired. My legs hurt, but my knees are ok.
Give me a bed and 600g of pasta and I am fine.
Living and being happy has never been so simple.

The arrival at a pilgrimage site is such a strong and personal feeling that I don't dare to describe it in my blog. You should try it out yourself.

Not easy to be a vegetarian bike tourer. I carried 1kg of whey protein all the way, and it is heavy, it looks bad, smells bad and specially tastes horrible. I decided to eat seafood in Spain, for the idea of having processed, industrialized protein every single day simply terrified me.
Yet it is not painless. Everytime I think I am eating a cute octopus I feel sad. But the idea of coming back to my chocolate protein makes me feel worse, so I keep carrying on my octopus diet.

My hipster heart broke when I lost my Ray Ban sunglasses. My cyclist heart smiled when I got sporty, orange sunglasses made for cycling.
They are comfortable, they look professional, but I can't stare at mirrors without finding myself the most ridiculous creature on Earth.

Thanks God the Daft Punk has released a great album just before I started my trip. Instead of Ai Se Eu Te Pego, I have Get Lucky playing in every corner. It can't get any better than that.

As my friend Judi puts it, my modelling career is over. I have a funny, cyclist suntan. Don't remember the last time I put on nail polish. My hair is... well, whatever. Let alone shaving and smelling good. Call me bicycle monster, babe.

But... Nothing is better than cycling when it comes to your body. I eat like a monster and don't stop losing weight. God bless my bicycle ride.


terça-feira, 9 de julho de 2013

#41. Diários de bicicleta: dias 10 e 11/The bike diaries: days 10 and 12

[English version below]

Nothing ever stays the same. Nothing´s explained. The higher we go, the longer we fly. Cause this is it for all we know. So say good night to me. Lose no more time - no time - resisting the flow. ['Ohm', Yo la Tengo ]

Dois dias viajando com Judy e os dois bombeiros lindos.
Enfrentamos a etapa mais dura do caminho, montanha tenebrosas, e normalmente eu chego em casa dormindo em pe.
Gosto dos meus companheiros. As vezes nos perdemos nas descidas, mas sem querer nos encontramos 20km depois. Estamos todos por nos mesmos, e em dois dias nos separamos. Existe uma tristeza e um compromisso de liberdade nisso, e por isso nao fazemos planos. Eu gosto disso aqui. E percebo que na vida, tambem.
E um eterno estado de graca, e as vezes sinto que o tempo nao existe. Que nada existe. Que a vida nao passa disso, de um caminho.

Estou a um dia de Santiago e meu coraçao nunca esteve mais leve.
Nao tenho mais medo das montanhas, e agora rezo pra encontrar umas subidinhas.
Nao tenho vontade de matar as pessoas.
Meu joelho se recuperou com banhos diários nos rios mais gelados do mundo.
Conheci tanta gente interessante que parece que 11 dias foram 11 anos. E com meus últimos amigos do caminho aprendi coisas importantes, como: é preciso pedalar sem calcinha/cueca, senao rolam assaduras; o mais importante nao e pedalar 100km por dia, mas sim parar pra enfiar o joelho no rio e beber cerveja, e rir, e dormir na grama; um dia de descanso a cada 7 é essencial, mesmo que voce nao saiba.
Parei de fumar.

E como nao sei o que fazer, e como ja nao tenho casa em lugar nenhum, e como sinto que a unica coisa que consigo fazer agora e andar de bicicleta, decidi que vou continuar pedalando.
Sigo pela costa de Portugal até Lisboa. Mais 1000km mais 15 dias. Depois, quem sabe, pego um aviao pra Berlim e faço mais uma viagem pelo Alemanha.
A diferenca e que agora passa uma coisa diferente. Nao quero pedalar pra resolver nada, nem pra aprender cicloturismo, nem pra explorar o mundo, e nao sinto mesmo que tenho mais que aprender a fazer cicloturismo. Isso eu ja sei, e do meu jeito.
Agora eu me sinto vazia.
Quero pedalar por mim mesma.

Acabam aqui, portanto, os diários de bicicleta da minha viagem pra Santiago. Hora de começar novas histórias.




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Nothing ever stays the same. Nothing´s explained. The higher we go, the longer we fly. Cause this is it for all we know. So say good night to me. Lose no more time - no time - resisting the flow. ['Ohm', Yo la Tengo ]

I´m a day away from Santiago and my heart has never been that light in my entire life.
I´m not afraid of the mountains anymore.
I´m not tired of people anymore.
My knees got better with daily baths in the cold rivers of Galicia.
I don´t remember having met so many interesting people in such a short amount of time... 11 days were worth more than eleven years. My new friends have taught me so much...: you should not ride wearing underwear, 100km a day should not be a goal, you should rest every 7 days or so.
I quit smoking for good. I don´t change my love for mountains for any cigarette in the world.

As I have no home, and as I don´t know what to do, I will keep cycling. I will follow the coast of Portugal, at least 1000km more. After that, I might cycle in Germany. starting from Berlin.
Now I´m not cycling to find out about myself or to sort out my stuff. I am not cycling for the adventure, and I don´t feel I need to learn something.
I´m just cycling by myself.
That´s the end of these bycicle diaries about my journey to Santiago de Compostela. Time to start writing new stories.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

#38. Diários de bicicleta, dia 7: mais rápida que o tempo/The bike diaries, day 7: faster than time

[English version below]
Dia 7
Carrión de los Condes-Léon, 110km, velocidade média de 25km/h

Nao estou interessada em conversar, nem saber de onde você veio, nem em trocar meu português pelo seu francês. O que eu quero hoje é sair daqui e pedalar até a cidade que fica para além do trigal marvado. Questao de sobrevivência.

Entao eu vou. Nem me atrevo na estrada de peregrinos, no ¡buen camino! com os caminhantes.  No poderoso mau humor que estou, minha bad vibe pode espalhar pra geral e todo mundo amanha ainda acaba acordando com tendinitie.  Assim é que eu desvio logo de cara, evito todas as flechas que indicam a trilha e pego a estrada nacional, 110 km planos e entediantes até Léon.

Ah!, gloriosa, objetiva, lisinha, vazia, calorenta e asfaltada N-120... Nunca ninguém te amou tanto como eu te amei hoje.

Pedalo. Pedalo, pedalo, pedalo. E quando minha mente começa a caminhar pelos vales tenebrosos dos meus medos e rancores, aí entao é que eu pedalo mais e mais rápido. Nao me atrevo a descer, a nao ser para pegar água e fazer xixi a cada 20km. O calor está insuportável, mas eu nao sinto nada, minha mente sao as minhas pernas. Como na bike, escuto todo o Abbey Road, ouço três discos do Daft Punk e um do Kraftwerk.

Eu atravesso os espaços vazios como se atravessasse o próprio tempo parado, e às vezes tenho a impressao de que entrei em outra dimensao, que estou sonhando. Ninguem me vê, eu nao vejo ninguém, mas sou de repente uma com a bike, com o presente, com o meu corpo e com minha mente, que agora está aqui, comigo, concentrada neste ùnico lugar e nesse esforço que é existir.

Se você pedala longas distâncias, acho que você conhece essa sensaçao.
Se nao, minha sugestao é que você aproveite que amanha é sabadao e saia pra meditar com sua bike logo de manhazinha.


Chego no albergue em Léon e dois espanhóis do hip-hop - um rapeiro, outro b-boy - se jogam na minha frente pra conversar. Sao ciclistas tambem. Eles sao os maiores sem grana da face da terra e me convidam pro programa mais bucha que pode existir: uma farofa esplêndida. Levando na mao algumas sacolinhas plasticas com frigideira, talheres, pratos e afins, os dois estao saindo pro parque da cidade para cozinhar um pacotinho de peito de frango no fogareiro que eles trazem na bagagem, já que neste albergue aqui nao tem cozinha e eles nao tao afim de gastar dinheiro com o menu peregrinos de 9 euros.

Passo no mercado e compro uma garrafa de vinho de 3 e 50. Sentamos embaixo da árvore e começa a cozinhaçao, fumaça pra todo lado, o frango rolando solto na frigideirinha enquanto eu, vegetariana, assisto e converso morta.-de-fome, um pedaço de pao puro na boca.

Vamos convir aqui comigo: maior reconciliacao com a humanidade do que esta nao há de existir.

****

Day 7
 Carrilón de los Condes-Léon, 110km, average speed 26km/h

 I´m in such a bad mood that I decide the only thing I can do is cycling. I don´t want to see anyone, I don´t want to talk to anyone, I don´t want to ¡buen camino! any of you bloody pilgrims. I'm definitely away from the hikers' path today; I'm in the mood for a paved and objective, road-biker-like, straight forward national road full of cars and nobodies.

My dear, beloved, glorious, boring, flat, Spanish national road number N-120! - nobody has ever loved you more than I did today.

Because I cycled you with all my heart, as if there was no tomorrow, begging you to take me away from the lands of boredom, and every time I felt resentful or sad, and every moment my thoughts wandered in the lands of sorrow (they were so many), then I cycled on your pavement even faster and even stronger, as if my legs could replace my mind, as if my body could anchor me somewhere else, somewhere light, somewhere good. Somewhere present.

So I did not leave my bike except to get water and to find restrooms, and in the 30 degrees of the Spanish summer I went as fast as if I was crossing time itself, and in going on like this for so long and so fast, I felt I became the Way itself, one with the moment, one with the only task of putting my body and my mind in service of the task of existing.



I arrive in Léon and two Spanish, hip hop cyclists jump in front of me. They are broke and don´t want to spend 9 euros in the Pilgrims Menu, so they invite me to go to the main city park. They have a bag with a pack of chicken that they will cook it with their camping tools. I say yes, get ourselves a bottle of wine and follow them and their chicken to the city center.

And here I am, vegetarian, starving, with a piece of plain bread in my mouth, watching these two funny guys as they prepare their chicken under a tree and laughing at their amazing stories about the hip hop scene in Spain.

If that is not my reconciliation with the humankind, then I have no idea about what reconciliation might be.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

#37. Diários de bicicleta, dia 6: trigal marvado/The bike diaries, day 6: my heart´s not flat

[English version below ]

Dia 6
Burgos-Carrión de los Condes, 87km, 5 horas na bicicleta, e faz tanto silêncio que eu tenho vontade de gritar


Pedalo pela parte que é considerada a mais difícil para os peregrinos caminhantes. Sao 200 kms planos, plantaçoes de trigo, poucas árvores pra proteger do calor. Faz mais de 30 graus centigrados, solzao no ceu azul sem nuvens. Os caminhantes vao de cabeça baixinha, meio sofridos com a mochila, todo mundo no maior bronze bermudinha e t-shirt.

Quanto a mim, saio voando pelas plantacoes. Meu joelho está na vibe milagroso, nao sinto nenhuma dor. O vento sopra nas minhas costas, vai me empurrando, empurrando. Assisto a onda amarela levando o trigo, estou dentro da plantacao, minhas asas sao o proprio trigo seco e fazem aquele barulhinho fluc fluc fluc fluc.

Pedalo 5 horas sem perceber. Subo a 30km por hora sem nenhum esforço, mas me custa descer, tenho que pedalar forte pra chegar abaixo das encostas. Faz tanto calor que só falta uma daquelas caveiras de boi da caatinga, o asfalto se dissolvendo em miragens de deserto. Estou num filme do David Lynch, penso comigo.

Agora ja nao vejo mais ninguém caminhando, só as ruínas dessas milhares de cidades medievais que ficam por aqui. Pela primeira vez na viagem me sinto sozinha e nao consigo ultrapassar a sensacao. Paro pra comer um sanduiche em algum lugar perto de Castrojeriz, entro na igreja de Nossa Senhora de Manzano e choro, choro, aquele choro de gente entediada e triste sem razao. Saio, encontro dois ciclistas barbudos chegando, digo oi, e eles nem respondem.

Malditos road bikers.

Chego em Carrión-de-los-Condes e me abrigo num mosteiro de freiras. Mais silêncio, e entao tomo a decisao. Amanha vou pedalar desde bem cedinho pra chegar em Léon e sair dessa trigarada. Meu coracao é menos forte que meu joelho; nao nasci pra esse negócio de bonito em lugar-nenhum. Meus dias de Eleanor Rigby are over.

***

Flat ride. Miraculous painfuless knee, and I ride through the flat landscape of wheat plantations.

There's a golden light everywhere, the sun´s high in the sky, and I fly with the wind. 5 hours in the bike, and I don´t see the time passing by. Middle age cities, none´s around, the asphalt dissolving in front of me, and I feel I crossed some some of gateway into a David Lynch's movie.

I feel lonely for the first time since the beginning of my trip. At some point in Castrojeriz I stop by to have a sandwich, enter the church of Nuestra Señora de Manzano and cry for no reason, those tears of the lonely and bored people.

As I reach Carrión de los Condes I make a decision: tomorrow I will ride as fast as I can, all the way towards Léon, away from the golden silent plantations. I can stand a sore knee, but I can´t stand a sore, bored heart. I was not made for flat, plain beautiful, Eleanor Rigby timeless days.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

#36. Diários de bicicleta, dia 5: pequenos milagres/The bike diaries, day 5: on miracles

[English version below}

Eu acordo e vou pedalando pra loja de bicicleta. Se meu joelho esta assim, deve ser algo com a postura na bike, eu penso, na esperanca que um ajuste especializado possa salvar minha pátria.
Meu joelho dói tanto nos 15 minutos de pedal até o centro que sinto vontade de chorar. Tenho medo de nao conseguir continuar a viagem. Tenho certeza que vou ter que comprar um par de tênis e continuar até Santiago caminhando.
O mecânico gatinho nao entende nada do meu problema, mas levanta o banco da bici no maior carinho e diz que eu tenho que ir embora, porque a loja está cheia e ele nao pode ficar perdendo tempo com bobagem. "Ali na frente está o hospital; acho que é pra lá que você tem que ir com seus joelhos assim".
Volto e passo o dia com o Enzo na cidade. Faz um sol maravilhoso, e de vez em quando eu paro num bar, peço um copo de vinho e um saco de gelo pra colocar no joelho.
Vamos no Museu da Evolucao Humana. Estou meio bêbada e tudo parece surreal - o homem-macaco, o paleolítico, a extinçao dos dinassauros, as sinapses cerebrais, a descoberta do fogo. Damos uma caminhada e depois vamos pro terraço ouvir música e tomar mais um vinho.
O Enzo me espera na mesa; eu volto com duas tortillas na mao.
No caminho pra mesa meu joelho faz um click.
Bebo mais meia garrafa de vinho e volto pra casa pedalando.

Nao tenho nenhuma dor.
É como se meu joelho tivesse voltado pro lugar.

****
I can't stand the pain in my knees. As I cycle to a bike store in Burgos I think about where to buy shoes to walk to Santiago. I'm sad and I can barely walk, let alone cycling.
The guy in the store says he can do almost nothing with my bike and points me out the directions to the hospital nearby. I cycle back in pain and wash my bike for 1 euro in the gas station. Funeral feelings.
Enzo is getting back from a public swimming pool and we spend the day walking around the city. We eventually stop for a coffee and I ask for a bag of ice to put on my knees. I´m already drunk when we reach the Museum of Human Evolution, and I have some surreal two hours wandering around, tipsy and learning about dinosaurs, brain sinapses and neanderthals.
It´s already night and we´re in the main square to watch a concert. I walk inside the bar to get a tortilla; Enzo's waiting outside with glasses of wine. I feel a click on my knees and smile inside, then drink half a bottle of wine and come back home cycling.

I have no more pain.
My knee is back to me again.

#35. The bike diaries, day 4 - at peace with Switzerland, negotiating a peace treaty with my right knee

Day 4
Santo Domingo de la Calzada-Burgos, 65km of negotiations with my right knee

I keep meeting this guy since the first moment I arrive in Santo Domingo de la Calzada. He was contemplating the cathedral when I stopped by to ask him where the pilgrims' hostel was located. I check in and right after that I notice he's sleeping in the bed next to me in the common bedroom - there are some 20 of these huge bedrooms with 20 bunkbeds each in this hostel. He's in one of the 4 computers in the digital room when I decide to update my blog. And then I finally cross him as I leave the hostel to my next destination.
It's around 9 a.m. and I'm already on my bike when I decide to leave the hikers' path and to make the right towards the national road to Burgos. Guess who's the only cyclist riding there?
OK, Universe, I got it. Out of all the pilgrims from every corner of the world, I'm stuck here in a bike ride with a Swiss guy. I accept it, but now the hell tell me Why.


I have these mixed feelings about Switzerland. Well, not so mixed: my worst nightmares are those ones in which I picture myself living in this country, winter time, cold Swiss people all around me, never looking me at the eyes, never conceding to touch or speak to me, giving me the worst time as I cross the street in the red lights.
As a matter of fact, I do hate Switzerland.
But Enzo turns my nightmare upside down. We go in and outside the path, the route is difficult, we often have to walk our bikes uphill. Born in the German part of Switzerland, he's from Italian descent. As we ride throughout the Camino he talks about his relatives in Naples and tells me his impressions about his way from Zurich until here.
As we approach Burgos, the pain on my right knee just becomes worse. I look at the signs and we still have some 15km to go. I can't cycle properly, so I go silent and slowly, cycling only with my left leg. The pain only grows stronger, and I'm terrified with the possibility of not being able to finish my trip.
Enzo is very reserved, yet calm and positive. We have lunch, find a hostel and later on he makes me company in my way to a drugstore. He is not desperated, he's trustful and suggests I should stop and have a rest day in Burgos.
He's right. I'm grateful for being surrounded by a sensible & sensitive person. I have an internal surreal dialogue with my body: "ok, I'll give you one day of rest and yoga. If you need more, I promise I will give you more. But can you take me to Santiago?"
I'm yet no sure why, but at last I feel I have made my own peace with Switzerland.


*poor right knee...



*Enzo in his Camino




domingo, 30 de junho de 2013

#31. Diarios de bicicleta, dia 1 - de onde começa El Camino


Dia 1
Irun-Beasain, 70km, 5hs de pedal, montanha e vale

Era ontem, dia 29 de junho deste nosso calendário cristao e largada da centesima edicao do Tour de France, e eu começava meu primeiro dia de peregrinaçao em bicicleta a Santiago de Compostela. Deixei o albergue em Irun, no País Basco, às 7 da manha. Up!, mapa na mao e me perco na primeira quadra, onde estao estas malditas flechinhas amarelas que indicam o caminho hasta Santiago? Pronto, encontrei, aí está, agora sou eu na trilha para pedalar 4 minutos e logo descobrir que realmente o lugar onde caminham os peregrinos é impassavel para os ciclistas. A peregrinacao em bike é diferente,algumas vezes pelo caminho, outras por estradas alternativas que você mesmo tem que procurar no mapa. (E a Espanha é maravilhosa, mas definitivamente nao é a Suíça das ciclovias...). Ladeira acima, desço da bicicleta, caminho uns 5 quilômetros entre meia dúzia de pereginos que apontam para mim em todas as línguas, que diabos esta ciclista bizarrona esta fazendo?  Pois bem: esta sou eu, caminhando morro acima e levando no braço uma bicicleta carregada com 10kg, morrendo de medo do pneu furar neste vale de pedras pontudas, a sapatilha de ciclista enfiando fundo no lamaçal, aquela cara de quem odeia existir antes das 9 da manha.
"Que inferno este caminho; onde caralhos fui me meter?": aí estao minhas primeiras impressoes sobre esta mistica peregrinacao.
5km assim, e eis que encontro uma estrada alternativa cortandoa trilha no meio do nada - ah, a paz do asfalto, vivam as road bikes!  Saco meu mapa e meu espanhol ruim e abordo o velhinho pescando no riacho no meio do Lugar-Nenhum - señor, como llego yo hasta Hernani? De ruela no meio do nada a estradas nacionais, às 8 eu já sentia meu pobre joelhinho enquanto subia as montanhas infinitas até Oiartzum and beyond, e 70km depois eu chegava no albergue dos peregrinos em Beasain.
Sao 2:30 da tarde. 50 camas, nenhum peregrino. Mariana, a hipster do Caminho, resolveu escolher uma rota indie para começar a viagem. Em vez do Caminho do Francês, a rota preferida dos peregrinos gatinhos internacionais descolados caminhando em busca da iluminaçao, decidi começar pelo Caminho do Interior, um trecho que vai de Irun até Santo Domingo de la Calzada, e que simplesmente ninguém - repito: nin-guém - conhece.
"Onde caralhos fui me meter?"
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Faço meu registro no albergue, minha voz ecoando no nada de ninguém de lugar nenhum. Dois velhinhos voluntários me registram, sentam comigo, me mostram no mapa o tanto de rodovias e desvios que vou ter que pegar no dia seguinte. "Es muy duro para los ciclistas, no hay nadie en bici en eses lados."
E eis que chega Antonio, o responsavel pelo albergue. Foi ele quem criou este lugar lindo, no meio da rota do interior, sem preço - você paga em donativos. Uns 60 anos, normal, sandalias, ele fez o Caminho mais de 20 vezes, de todos os jeitos possíveis. Está empolgadíssimo porque em 26 dias vai fazê-lo de novo, combinando milhares de percursos diferentes. Mas nem fala sobre isso, nao está interessado nas minhas 257.432 perguntas que giram em torno da pergunta-base como é o caminho? Em vez de responder ele spluft, vê minha pobre bici esfarrapada, acha lindo uma lulher sozinha pedalando o caminho, diz que nunca viu isso, sai correndo, pega o carro e lá de dentro grita "vamos!", me enfia no banco do passageiro falando num espanhol meio basco que eu entendo mais ou menos, e vai subindo, subindo, uma rodovia estreitinha de mao dupla que serpenteia no meio da floresta, uns 40 minutos, e eu vou sentindo uma crescente e quase incontrolável vontade de vomitar porque ele sobe aquelas encostas correndo, tudo chacoalha dentro daquele carro, está ficando alto demais muito rápido, what the fuck... "Mira: es en esa carretera que tienes que subir mañana. Vas hacer ese camino mañana, ¡no te pierdas!"
Meu Jesus.
Ele estaciona o carro no meio da floresta. O dia está lindo, e vamos caminhando montanha acima. Vejo um cavalo com um cavalinho bebê de uns três dias e tenho vontade de chorar. Chegamos. Aí está: uma caverna com uma igreja dentro. Uma fenda, e para continuar o caminho é preciso abaixar até o outro lado. Abaixamos. Atravessamos. Um tapete de pedra e grama,o topo da montanha. Caverna de San Adrian, uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida.
Ele sabia que eu nao podia chegar de bici, o dia estava lindo e ele achou que eu devia ver com meus próprios olhos.
Continuei perguntando do Caminho enquanto descíamos. "Ya no sé yo lo que es lo Camino. Cada uno hace su Camino; el Camino es el tuyo. Y él no empieza aquí: empieza cuando saliste de casa para hacerlo: ahí empieza tu Camino".
Muchas Gracias, Antonio.
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Entao, para resumir, foi assim:
Eu saí no dia 14 de junho para fazer uma viagem de bici com minha companheira de esportes. Carol e eu pegamos um trem até a Bretanha, no norte da França, e pedalamos 1200km até a fronteira com a Espanha, a maior parte do tempo com um amigo irlandês que conhecemos na estrada. Chegamos, eu nao vi sentido em voltar - afinal de contas, já nao tenho mesmo casa em lugar nenhum.
E como estávamos a 5km de uma cidade-base para o caminho de Santiago de Compostela, remarquei minha passagem pro Brasil e decidi continuar até Santiago.
A história do meu Caminho, naquilo que der, eu vou contando aqui, quando der. Copiando do meu diário de viagem, sel elaboraçoes... Porque afinal de contas, eu estou no dia 2, e afinal de contas, nem internet, nem smartphone, nem nada. Thanks God eu ainda tenho meus joelhos. Mais ou menos.
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Entao rezem por mim nas encostas das montanhas.
 
Aqui está a página do facebook do albergue do Antonio:
https://www.facebook.com/albergue.debeasain?ref=ts&fref=ts

E a trilha sonora para uma ecumenica hipster mistica peregrinando em busca da iluminacao:




E eu prometo que vou contar melhor, inclusive minhas impressoes da viagem com a Carols, quando voltar pra vida normal - nao posso nem copiar meu diario daqueles dias, porque perdi o caderninho onde estava anotando as coisas num dia que a bici estragou na chuva...
Ainda nao comprei camera, entao, torçam ai pra Carols postar as fotos ou para eu encontrar uma lojinha de fotografia aberta fora do horário da siesta.

Buen camino, compañeros!

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