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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

#76. Relato sobre minha experiência com a meditação


Fiz umas aulas de pintura japonesa da última vez que estive em São Paulo, em julho. Entre uma conversa e outra, eu e a professora acabamos falando sobre meditação, e ela me pediu pra escrever um relato das minhas experiências para dividir com outros alunos que queriam começar a meditar. 
Nos últimos dois anos andei sem casa, dividindo o tempo entre a Índia, o ashram em Portugal e a vida com a sangha na Espanha. Meditar virou meu café com leite de cada dia. Aqui vai o texto sobre meditação que entreguei pra professora, junto com uma promessa: depois de voltar da minha viagem de bicicleta que começa amanhã (sim! Alemanha+República Tcheca  - no frio!) vou dedicar um tempinho pra falar desses dois anos por aqui.

 

1. Sabão em pó, banana e leite


Não foi da noite pro dia. Quer dizer: foi. Mas demorou quinze anos. Depois demorou mais dois. Mas quando aconteceu, precisou de menos de um segundo.

Ouvi falar em meditação pela primeira vez quando tinha uns quinze anos, ainda na década de 90. Vivia em Curitiba e uma amiga que fazia tai-chi me disse algo sobre umas práticas de relaxamento e respiração. Naquela época, bem-estar e espiritualidade não eram moda. Ninguém fazia Pilates, ninguém praticava yoga e meditação era sinônimo de budismo. Quem sentava numa almofadinha em silêncio, portanto, estava ali para alcançar a iluminação. Sendo uma dessas pessoas bem ordinárias e prosaicas, nunca achei que pudesse passar 20 minutos em silêncio, concentrada, e menos ainda me iluminar. E então foi assim, derrotada pela minha própria auto-imagem, que fechei a porta sem nem tentar e me escondi ali, atrás dela, espiando de longe os meditadores todos do mundo como se eles tivessem algo especial que sem sombra de dúvida devia estar faltando em mim.



Quinze anos mais tarde as coisas tinham mudado bastante. O ano era 2011 e agora todo mundo que eu conhecia fazia yoga – inclusive eu. O David Lynch já tinha publicado um livro relacionando meditação e processo criativo, e volta e meia saía algum artigo na internet informando que a ciência reconhecia que meia hora de silêncio melhorava as funções cerebrais, a concentração, o sono. Sentada na sala do meu apartamento, eu arrumava as malas pra me mudar para a Suíça enquanto um amigo do trabalho tomava uma cerveja na varanda, comentando sobre suas experiências com a meditação.  Ele descrevia um universo de aventuras visuais e auditivas, um silêncio cristalino, chuvas de insight e compreensão profunda sobre a própria existência. “Também posso”, concluí, ouvindo o amigo normal, e naquele dia resolvi que iria atravessar a porta e colocar o pezinho para dentro daquele mundo apetitoso.  Anotei no caderninho: chegando em Genebra, minha primeira providência vai ser procurar um grupo e aprender a meditar.



Não um, mas todos deste mundo. Nos dois anos seguintes, sentei nas almofadinhas ao lado de centenas de meditadores na Suíça e na França. Pratiquei Vipassana religiosamente às terças e quintas, cantei horas e horas de mantra junto com outras pessoas para me purificar e concentrar os pensamentos, fiz cursos para desenvolver a mente compassiva com uma monja respeitada dentro da tradição do budismo tibetano e – ainda com os tibetanos – passei a frequentar grupos de meditação todos os sábados. Não satisfeita, me aventurei a sentar de frente para a parede num templo subterrâneo parisiense onde uma mestre me introduziu à meditação zen.


Não deu certo. Mais: não deu certo nenhuma vez. Longe disso. Fui a  maior heroína derrotada da história das religiões orientais. Nenhum silêncio cristalino, nenhuma sensação mística transcendental. Minha cabeça virou uma maquininha, e era só eu sentar que começava a lista do mercado: “sabão em pó, duas caixas de leite e banana... Será que ainda ficou maçã na geladeira”?

No dia da meditação zen eu dormi, bati a testa na parede, atrapalhei a concentração de todos os demais meditadores super sérios vestidos de quimono preto e morri de vergonha.



2.  O tempo além do tempo 

E então um dia aconteceu.  Inesperadamente, sem aviso e nem glamour, num retiro silencioso que estava sendo transmitido ao vivo pela internet. No telão que montamos na sala de uns amigos, ouvi o mestre lá do outro lado do mundo dando as boas-vindas e introduzindo os ensinamentos. Eu tinha trinta e três anos na noite do dia 11 de setembro de 2013.

As pálpebras que fecham um olho de cada lado, de uma só vez, e na terceira frase também as outras cortinas entre o meu corpo e aquilo que está do lado de fora da minha pele caíram, todas as janelas se trancaram e eu comecei a habitar o dentro de mim pela primeira vez.  E a sensação foi assim: você tem um quarto em casa que não foi aberto nos últimos trinta anos. Nem no inverno e nem no verão, e pode parecer que é só o hábito de não perder tempo ali que te afasta, mas na verdade existe, misturado com ele, esta reação de evitar os lugares desagradáveis. Até que um dia alguém te empurra, você entra sem querer e descobre que a maior parte das coisas que você tinha lá dentro apodreceu.

Este quarto é você. E quem entra também é você. As coisas que você encontra são você. A porta é você, a travessia é você, e o corpo que te assiste dando o passo é você. E o tempo no qual todos os gestos acontecem, este tempo acontece dentro do espaço consciente daquilo que você é.

No silêncio, todos os quartos esquecidos e tudo aquilo que está dentro dele vai aparecendo e sendo revivido na experiência do corpo daquele que medita. Estar vivo e aberto é a senha para penetrar estes lugares secretos. Meditar, assim, não faz parte dos nossos hábitos de agir a partir de uma intenção. É preciso ligar outro canal. Não medito pra me acalmar, nem para controlar os pensamentos, nem pra pensar coisas boas ou descobrir algo. Entro na água, atravesso a arrebentação, chego no fundo, deito de costas e vou boiando. Passam ondas e passam as correntes, chegam os peixinhos mas eu não abro o olho e não sei onde vou parar. É o mar quem decide. Mas a experiência é minha, e só eu posso sobreviver e explicar para os outros como é sair boiando pelo oceano selvagem dos vários mins.

No primeiro ano meditei todos os dias, muitas horas por dia. Sentava sozinha em silêncio e deixava tudo acontecer sem me mexer nem um pouquinho. Tive a sorte de encontrar o meu mestre muitas vezes, também, e ele me orientava. Às vezes vinha raiva de alguém, e eu ficava com a raiva – vivia com, não apesar dela: sem tentar fingir que não estava acontecendo, sem tentar reprimir e nem substituir por algum sentimento mais nobre. Sentia os lugares do meu corpo onde a raiva se expressava, e às vezes ela era uma explosão de rancores tão forte que era como se não existisse mais nada além das injustiças todas que já sofri nesta vida. E de repente a raiva passa. Eu continuo. Às vezes aparecem os amigos, às vezes aparecem os arrependimentos, as palavras que nunca falei e que nunca mais vou poder falar para o meu avô, e muitas vezes vem tanto amor que parece que o ponto no meio do meu tórax está com um buraco que não para mais de vazar.

Com o tempo, a prática da meditação foi ficando tão normal que começou a transbordar. Existiam as horas de sentar em silêncio, sozinha, mas me dei conta que, inconscientemente, tinha passado a praticar o mesmo princípio à minha existência ordinária. Em vez de reagir, foi sem querer que comecei a observar. Quando alguma coisa requeria um gesto ou uma ação, o gesto e a ação vinham, mas sem o mesmo tipo de investimento emocional de antes. Como a raiva, no colchãozinho: vem, fica, abre a porta e vai embora.

Eu continuo.


3. Depois agora

Esparramada, como se tornou, entre os momentos de retiro em cima da almofada e a hora de pagar a conta na padaria, já não sei discernir com tanta clareza quais são os benefícios que a meditação me trouxe. Para dizer bem a verdade, nunca procurei meditar por causa do ponto de chegada, mas por causa da travessia. E olhando para trás, foi tudo travessia, mesmo a solidão embalada pela lista de mercado. A única diferença é que eu tentava de todo jeito fazer a lista de mercado desaparecer, em vez de deixar a banana e o sabão em pó desfilarem, simplesmente, sem prestar tanta atenção.

Existe um mantra que diz: gate gate paragatte parasamgatte bodhi svaha.  Uma das traduções possíveis é: “sempre ser, sempre tornar-se Buda”. O que ele anuncia é essa linha que nunca começa e nunca termina entre o ser e o tornar-se. Ao longo dela, a existência é ininterrupta e orgânica, um começo se junta com um fim, e as ideias de nascimento e morte não conseguem descrever aquilo que só acontece como transformação. O universo, dizem os físicos, continua em expansão.

Medito porque, quando fico sozinha e em silêncio, caminho e sou caminhada pela existência como quem anda numa sala de espelhos em que tudo reflete tudo. Cada imagem me devolve em regressão infinita, e  acho que nunca vou chegar ao fim de mim mesma. Não no desta daqui, a pequena. No da outra.

Para entender, é preciso, talvez, dar um passo para o além da mente lógica. Para ir além da mente lógica, minha alternativa é meditar.

domingo, 8 de junho de 2014

#65. The Summer Diaries: the frame/Os Diários do Verão: cantinhos

[texto em Português logo abaixo]


#1. The Puzzle

 The pieces are scattered on the table. Somewhere between then and now I decided to try putting together this 50.000-pieces one. That means I left behind my safe, mid-potential 2.000-piece puzzle to dive into an endeavor that will cost me these three months of summer. My puzzle has the picture of a snowy mountain, cows, blue sky and some huts in the background.

Those who are into puzzles are aware that the first step consists of putting together the frame of the picture, and only after that we can come up with the cows' faces, the snowy top of the mountain, the shadows of the chalets. Sky, grass, the earth tones: those are all left behind to be confronted when most of the picture already makes sense. The end is just a matter of matching a cloud with the other.


#2. A House of cards

You give me the puzzle. I find a house of cards.

It's not that I'm showing off; I'm not saying that I'm 100% sure a will finish it by summer. But fact is that I've already finished framing. Yes. I found out that I had confused a piece of the sky with the cow's paw. What is it all about - a mountain or a cloud? There's a lot to be done, but I have the everyday-of-three-months to be finished.

Of course 50.000 pieces is a lot and the whole floor before me is covered cow-sky-inside-out-upside-down, and I walk slowly, carefully not to unmake the whole thing. Me walking inside the house of cards that you granted me with.

A wrong step to the side and everything can fall on my head. I don't want to break the pieces of your eye by mistake.



3. A Domino Path

... meanwhile, I sit by the same coffee place in Andaluzia.

I arrived here a week ago and I'll stay one more month before moving somewhere else. The owners here are Sufis and know me from last year. They like my presence and spoil me: my coffee comes in a beautiful cup printed with a map of Brazil.

The music is good and ranges from Brazilian songs to flamenco, Sufi mantras and Beatles. And so do I - an oscillation myself, I walk from my blog to hotel reservations and my thesis. Many friends from the sangha are around yet I'm not so into speaking. Staring at the mountains and the river outside, that's what I love the most. Some days I can even see the sea from here.

So in this summer I decided to put together my 50.000-piece puzzle hopefully without bringing down the house of cards. By end-September, then may I be able to blow away my sand mandala, cow's-face-and-paws-cloud-grass-mountains-elephant-sky; walk on the top of these cardboard-made pieces; take a ride on a train that crosses the domino path so that I can watch it falling down, piece-by-piece, until there's nothing else left but the collapsed, kind of dead path behind.


*These are The Summer Diaries. They'll be written in real time in the various countries where I'll be living until end-September. They are the record of my journey of meditation, silence and satsangs with my (sat) guru in the next months.
So that I can throw away my puzzle. Or to say it in different words: kick the door, walk across the border, stamp my passport with the flag of ladosladosdela.


***

#1. Quebra-cabeça

Em cima da mesa está a caixa, e eu vou espalhando as peças. Algum lugar a meio-caminho daqui eu decidi fazer este enorme, de 50.000 peças. Abandonei, portanto, o potencial médio e seguro das 2.000. Vou ocupar a mesa inteira da sala e os próximos três meses da minha vida pra terminar este daqui. O meu tem a foto de uma montanha nevada, vaca pastando, céu azul e umas casinhas no fundo.

Quem gosta sabe que a gente começa a montar quebra-cabeça pelos cantinhos e pelas imagem mais discerníveis. Primeiro é encontrar as linhas retas e as esquinas, e logo a gente tem a moldura. Depois a cara da vaca, a pontinha da montanha com neve, o telhado do chalé. O céu, a grama, os tons de terra: estes a gente deixa pra depois, quando já der pra ver que a maior parte da foto faz sentido. Quando só fizer falta acertar uma nuvem com a outra.


#2. Jogo de varetas

Você me dá o quebra-cabeça, eu encontro o jogo de varetas.

Porque o projeto é ambicioso, eu não quero soar pretensiosa demais e dizer que vou conseguir terminar tudo neste verão... Mas a verdade é que eu já encontrei os cantinhos. Por enquanto acabei de descobrir que eu tinha confundido o pedaço do céu  com a pata da vaca. Ou onde foi que inventaram isso da montanha ser também nuvem? Falta muito, mas eu tenho o todo-dia-de-três-meses para terminar.

50.000 peças é bastante, e agora é o chão inteiro da sala que está assim, vaca-céu-nuvem-de-cima-pra-baixo-do-lado-avesso, e eu caminho devagar pra não desmontar nada de lugar nenhum. Eu caminhando dentro do jogo de varetas que você me deu.

Um passo pro lado e se eu não prestar atençar pode ser de desmoronar tudo aqui em cima de mim. Ou eu posso desmontar um pedaço do seu olho sem querer.


#3. Um caminho de dominó

... enquanto isso eu sento no mesmo café na Andaluzia.

Estou aqui há uma semana e fico mais um mês antes de me mudar pra outro país. Os donos são Sufis, me conhecem do ano passado e gostam de me ver aqui. Todos os dias tem esse mimo: eles servem meu café com leite numa xícara com desenho do mapa do Brasil.

A música vai assim, entre uma cantora brasileira cafona, um pouco de flamenco, mantras Sufis e Beatles. E eu vou assim, entre o blog, a reserva de um hotel pro meu pai e o sumário da minha tese.
Tenho muitos amigos da sangha mas muito pouca vontade de falar. Eu gosto mesmo é de ficar olhando as montanhas e o rio aqui do lado de fora. Às vezes dá até pra ver o mar.

... porque nesse verão eu decidi montar o meu quebra-cabeça de 50.000 peças sem deixar nenhuma vareta cair em cima de mim. E quando setembro chegar, então eu vou soprar a mandala de areia, cara-de-vaca-nuvem-grama-montanha-elefante-no-céu, dançar em cima dessa bobagem feita de 50.000 pedaços de papelão, subir num trenzinho e viajar neste caminho de dominó, um derrubando o seguinte, chegar no final pra ver se esse monte de peça morta faz algum sentido.

*Estes são os diários do Verão. Escritos em tempo real e entre os diferentes países onde eu viverei até outubro chegar, eles são o registro em tempo real da minha jornada de meditação, silêncio e satsangs com meu (sat) guru daqui até lá.
Para poder jogar fora o quebra-cabeça que estou tentando montar. Ou, dito de um outro jeito: chutar de vez a porta, atravessar a fronteira minúscula, carimbar meu passaporte com o selo de ládosladosdelá.





quinta-feira, 3 de abril de 2014

#63. All synonym of all/Tudo sinônimo de tudo


[Versão em português abaixo]

I carry in my heart a 2013-2014 CV in which it is written a "3-and-a-half-months bike tour in Spain". It was not supposed to be "a spiritual journey", but looking back now
I cannot see anything more spiritual than watching the sun going up and down, the days starting and falling apart in the full integrity of a transient world which insists on keeping moving no matter how fast my legs were able to cycle to catch up with it.

In my 2013-2014 Curriculum there is also this entry saying "Found a Guru" and "Spent 1 Month in India"     yet I never told it to anyone because maybe I thought nobody would ever understand that    but the moment I saw my beloved teacher he transformed himself into an Ocean so that I could not learn from him anymore the way I thought a student should take a lesson (I discovered then from him that there was a new way of learning).
But coming to teachings, it was a crowd of so new friends in India     Brazilians Israelis Serbian Slovakian British    who taught me different ways of loving.

And back in Geneva I  started writing my thesis so I put my hands on Paulo Freire's book for my 1st chapter. And I read him saying that when the oppressed rebel to transcend oppression without desiring to becoming oppressors    then they are acting with love towards the oppressors, liberating not only themselves but the oppressors too - and that's the only possible kind of true liberation.
And that reminded me of the Buddhist concept of compassion and liberation of all beings.
And also of the Beatles' song which is written in the abandoned ashram in Rishikesh and which says that in the end the love you take is equal to the love you make.
Or the documents for my thesis in which people in the 60s argue that the true gospel of Christ means acting with selfless kindness into everyday life towards everyone.
Which in turn echoes my present assumption that my ashram is the world if I am able to see it as such.

Love is wherever with you.  All just a synonym to the very same word.






* * *

[Versão em português]




Eu levo no meu coração um currículo 2013-2014 no qual lê-se "3 meses e meio andando de bicicleta na Espanha".
Não era para ser uma viagem espiritual ou algo que o valha, mas olhando para trás agora eu entendo que:
não existe nada mais espiritual que assistir os dias que começam e se despedaçam, íntegros na roda de um mundo impermanente que insiste em continuar mudando não interessa o quão rápido pedalem essas minhas pernas para tentar alcançá-lo.

E em outro lugar do meu currículo, agora em 2014, há uma seção que menciona "Mariana Carpanezzi encontrou seu guru" e também o de que "Mariana Carpanezzi passou 1 mês meditando na Índia".
Mas pra dizer bem a verdade, o fato é que eu não contei direito pra ninguém, talvez porque achei que ninguém ia entender (nem eu mesma), mas no exato momento que eu o vi, o meu querido guru se transformou num Oceano, e a partir daí eu não pude mais aprender dele do jeito que eu achava (antes) que um aluno tinha que aprender a lição          Além do Mooji, então na Índia outros professores vieram, amigos    brasileiros israelenses sérvio eslovaco inglês    que me ensinaram a amar de um jeito diferente.

E então eu voltei pra Genebra, e para escrever o primeiro capítulo da minha tese eu tive que ler este livro do Paulo Freire. E ele diz que o oprimido tem que se rebelar, mas que para transcender a opressão ele precisa ir além, sem querer transformar-se em opressor. Fazendo isto, ele age com amor, liberando a todos - a si próprio e aos opressores. Esta seria a única forma de liberação.
O que me lembrou do conceito budista de compaixão e de liberação de todos os seres.
E também da música dos Beatles que está pixada no ashram abandonado de Rishikesh e que diz que in the end the love you take is equal to the love you make.
Ou dos documentos para a minha tese, nos quais as pessoas dos anos 1960 defendiam que o verdadeiro Evangelho de Cristo só poderia existir na ação concreta, todos os dias.
E que, por sua vez, ecoa minha convicção, hoje em dia, de que o meu ashram é o mundo, e que o mais importante é ser capaz de vê-lo assim.


Love is wherever with you.  Tudo sinônimo da única e mesma palavra.


terça-feira, 11 de março de 2014

#61.Os Diários da Índia: Om Namah Shivay/The India Diaries: Om Namah Shivay


[English version below]

É fim da manhã e eu estou numa praia na beira do Ganges. Não tem ninguém: hoje somos só eu e o sadhu que seca um pedaço de pano no dia sem sol.  Lento, assim, ou ainda mais precisamente: para além do tempo     é esta praia vazia, o rio hoje que passa devagar, o nublado que me resiste calor, sombra e vontade de tomar o banho sagrado no último dia de Rishikesh.

E porque não existe mais nada pra fazer, então eu sento em Silêncio. E me vejo perguntando se eu existo quando não tem ninguém pra escutar o que eu digo         que nem agora.    Ou o que é que existe quando não tem ninguém para escutar. Ou se na verdade alguma vez houve alguma coisa que eu falei que realmente precisou ser dita.

Entre dormindo e acordada, aqui neste lugar vazio de algum jeito que não é na cabeça eu entendo que todas as palavras são inúteis. Que viver de palavras é do reino do Absurdo.        :O Essencial é do reino do indizível

E eu vejo como uma bola de futebol o nonsense dispensável que é o Pão Nosso de Cada Dia: os gestos, as tentativas, os erros e os acertos; todos os momentos de planejar, todos os planos e sonhos, a memória das pessoas que eu amo, meus pais sentados no banco do quintal lá em Curitiba, meu irmão acordando com a cara amassada. A solidão da Suíça, os amigos que sempre estão lá longe, minha viagem de bicicleta, o futuro pós-doutorado, a casa que eu já deveria ter comprado, o companheiro que eu deveria ter encontrado, o filho que eu já poderia ter tido. Tudo que eu deixei, tudo que eu ainda não consegui deixar, tudo que eu tenho medo de perder. A morte – a minha e a dos que eu amo, e mesmo meu desejo de Verdade.

Tudo aquilo que É Evidente desaparece no momento em que não existe nada, em que não há ninguém para me testemunhar a não ser eu mesma, sem disfarces       sem sol        num lugar desconhecido.  Tudo que sobra é Nada, e esse nada é o que eu sou.

Tão pura, ela me vem assim: para além do gostar ou não gostar, a Índia é uma forma de morte.

***


[English version]

Late morning and I'm sitting by myself facing the Ganga. Quiet around: today it's me and the sadhu who dries his piece of cloth under the cloudy sky.  Slowly or even better     :timeless        this place is empty, the river flows lazy today and the gray sky asks me not to run for the supposedly holy bath in my last day in Rishikesh.

And because there's nothing else to do       then I do sit in Silence.  I'm soon asking myself if indeed I do exist when there's none to listen to what I say, like now        Or      What is it that exist when there's none to listen to what I say         Or        Is there actually something worth saying beyond Silence itself?

Half awake-half asleep        here in this empty place I understand somehow that every and each word is useless.  Living from words is to dive into the Absurd         :the Essential knows no word.

Just as if it were a soccer ball       then I watch the nonsense that I am used to play with everyday: my gestures and words, trials, mistakes, failures and successes; every planned and planning moment, every future plan, the memory of those ones who I love, my parents sitting in the backyard side by side under the orange tree and my beautiful brother waking up late in a Sunday. The Swiss solitude, my friends scattered all over the world, my bike tour, my future after the PhD, the house I should have bought at this point, the man I should have met at this point, the child I should already have had at this point.  Everything that I have left behind, that which I could not yet abandon, all I'm afraid of losing. Death - mine and my beloved ones'. My clumsy Truth-seeking journey.

And all of this which has always been so evident disappears in this moment when there's nothing and none to watch but a Bare Me       no need to pretend        in this me alone   by the river    no sun    in Rishikesh.  NOTHING is that which is left; that's only that which I am       no lies allowed here

So pure, she gives me its vertiginous gift: beyond loving it or not, India is a sort of death.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

#59. Os diários da Índia: todas as formas de amor/ The India Diaries: all forms of Love





[English version below]


a mulher sentada na beira do caminho tem uma folha entre os lábios, e a vaca que se aproxima com a língua para tirar dessa boca a comida é abraçada com carinho depois do beijo
na sala de satsang uma pergunta surge com a voz do medo de morrer para encontrar conforto neste ensinamento que diz que há o amor se você se jogar do trapézio sem rede de segurança
são duas da tarde e uma família de porcos descansa ao sol ao mesmo tempo em que cabras e pessoas e crianças e cinzas de mortos e restos de plástico encontram seu caminho nas águas do rio Ganges
dois turistas americanos pechinchando as estátuas lindas do Buda que o indiano vende a 20 reais
na privada do meu hotel barato bóia uma camisinha usada e meio amarela dos antigos hóspedes
as buzinas de motos encontram a voz dos santos em alaranjado que cumprimentam seu Hare Om

: faz sol, e eu sentada com alguém num banco imundo      rindo desde um lado de mim        enquanto do lado avesso eu vou amando de um jeito diferente e tentando aprender essa coisa que a gente chama de Partida

***

she is sitting by the dusty path with a leaf in her mouth and the cow that is now approaching gets her warm hug after the lunch kiss from those human lips
the question crosses the satsang hall enveloped in the fear of death to find comfort in the teaching that promises love if you throw yourself from the cliff with no safety net
it's 2 pm and a family of pigs catches the sunshine at the same time in which goats and people and children and plastic bags find their way in the water currents of the Ganga
two American tourists bargaining in front of the beautiful Buddha statues that the Indian man is selling for 5 dollars
inside the toilet of my room sits a used condom from the previous guests
and this sound of motorcycle horns meeting the silence of the Babajis who greet us their Hare Om

it's sunny, and I'm sitting with someone in a filthy bench in the street        I am smiling from one of my insides for having the chance of loving in a different way        while from the other one I try to accept this thing we call Leaving

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

#58. Diários da Índia: residir no coração/ The India Diares: resident in the heart

[English version below]

Chego em Rishikesh.

Vou caminhando e vendo que estou no meio de um milhão de ashrams. Eles estão em todas as esquinas, tudo está em todas as esquinas porque tudo aqui é feito de labirintos, de becos, de curvas, de lugares escondidos       este lugar das esquinas
a cidade consagrada a Shiva, na beira do Ganges sagrado, aos pés dos Himalaias, a capital mundial da yoga, todos os gurus e todos os charlatões reunidos e cheio de gente e de vaca e de lixo e de esgoto e de sujeira e de brancos fazendo curso de yoga ayurveda meditação e sabe-se lá o que, porque também aqui é o mundo e essa vontade existe        às vezes     de comprar a iluminação     de arrancar a Verdade do pé pronta como se fosse um abacate ou uma jaca
então eu não entendo direito como é que assim       desse jeito       sem mudar nada     uma coisa pode ser também tão linda

então eu continuo caminhando, e de repente eu vejo o Mooji que vem na minha direção, caminhando com poucas pessoas em volta
ele é pequeno e parece um ursinho de pelúcia
eu paro, cumprimento
ele me chama, a gente se abraça e eu só consigo dizer thank you, Mooji, thank you, thank you
meu amigo chega perto dele, eles conversam, mas eu não tenho vontade
 eu estou tão feliz
acho que nunca fiquei tão feliz assim
se eu tivesse que pegar meu avião amanhã e nunca mais vê-lo, ainda assim eu estaria feliz

e essa incrível sensação de amor besta, o retorno para um lugar que parece minha casa, esta gratidão por encontrar residência no coração


*Este e o segundo de uma serie de posts escritos on the road sobre minha primeira vez na India, numa viagem que estou fazendo para estar na presenca do meu guru Mooji, em Rishikesh. E, portanto, mais um diario de aventura espiritual do que um caderno de viagens.
**Em gratidao ao querido Mestre, estes diarios sao dedicados a ele e aos amigos maravilhosos que, de uma forma ou de outra, me acompanham por aqui.

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In Rishikesh.

My legs take me for I walk, and all around me these ashrams, everywhere, in every corner, and this city is nothing but corners   encounters   dead ends   curves   hidden spaces   :the city of all corners

the sacred city dedicated to Shiva, by the holy Ganga mother, by the feet of the Himalayas, the world yoga capital, every guru and also every charlatan gathered together in unmoving peace. and people and cows and trash and western people taking all kinds of courses ayurveda meditation yoga whatever        because here is the world         and in it there is this strong feeling of attaining Liberation, so sometimes this urge expresses itself as "I want to purchase it now, please"      as if Freedom were this fruit we could get ripe from a tree   an apple   a mango    3 peaches.    and all this is also ok and understood

the joy fills me as I don't understand how          exactly the way it is     without changing any little thing         this Rishikesh can be so beautiful

thus I keep walking to suddenly catch a glimpse of Mooji who is coming in my direction, walking with almost nobody around him
he's small and his presence is a sun that invites embracing
I stop by, put the palms of my hands together and say hello, my face just a big smile
he calls me, hugs me, and I can say nothing but thank you, Mooji, thank you, thank you
my friend approaches him and they talk, but I don't feel like talking
I'm so happy, and this happiness now does not have space for words
It's happiness, I AM nothing but happiness
so I feel that even if I had to take the plane back tomorrow and not being able to see him again, even in this situation I would be the happiest creature on earth

: this incredible sensation of Love, the certitude of coming back Home, the gratitude for having found residence in the Heart

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

#57. Os diarios da India: nada de novo no front

Primeira posicao na minha lista de desejos desde sempre - la em cima, quilometros de distancia da segunda posicao. Por isso essa coisa inconsciente de pensa-la sempre como uma grande viagem. A Viagem Espetacular pela India Profunda, a Viagem Quintessencial, aquela que mudaria tudo, separando o tempo da vida entre o Antes e o Depois. Entao eu planejei que um dia eu iria, e li todos esses livros, e sabia tudo que eu faria muito antes da partida acontecer. (Minha cabeca, essa grande anti-viagem).

So que quando veio, veio assim: Ordinaria. Tao prosaica como pegar um onibus pra ir no mercado. Um dia o Mooji anunciou que ficaria um mes em Rishikesh oferecendo satsang para os discipulos. No meu coracao veio a vontade de ver o Mooji antes mesmo daquela vontade velha de India. Comprei um bilhete barato e voei ate Delhi. E e tao pertinho da Suica que eu fiquei sem entender porque nao tinha vindo antes.

Cheguei de madrugada, ontem. Assustadoramente normal, minha reacao foi de embasbacamento pela falta do Esperado. Nao me assustei com o transito, nem com a comida, nem com a pobreza, nem com o jeito de vestir, os barulhos nas ruas ou o cheiro onipresente, e nem fiquei achando tenebroso essa coisa das pessoas ficarem me olhando por eu ser branca e meio careca.

***

Acho que quando tudo e tao radicalmente estrangeiro, entender vira um pais distante. Da pra singrar as aguas turbulentas de interpretar e querer entender essa coisa que e completamente bizarra para todos os meus tipos de condicionamentos. Eu nem cheguei a tentar, e no primeiro momento foi reacao instantanea, e eu just let it go: passo a viver bem assim mesmo, sem entender nada. Tudo e fresco, nada me cansa porque eu nem me importo em saber o que significa. Sou uma tonga nas ruas de Delhi.

Melhor sensacao de leveza deste mundo, esta de encontrar um lugar onde a vida e surreal e taken for granted. Essa liberdade tao maravilhosa e excepcional que me faz sentir imediatamente em casa aqui em Delhi; a maravilhosa consciencia de me encontrar profundamente burra, quase nem sabendo quem eu sou.

Welcome to India, Mariana.

http://www.youtube.com/watch?v=uBqluZ5LieM


*Este e o primeiro de uma serie de posts escritos on the road sobre minha primeira vez na India, numa viagem que estou fazendo para estar na presenca do meu guru Mooji, em Rishikesh. E, portanto, mais um diario de aventura espiritual do que um caderno de viagens.
**Em gratidao ao querido Mestre, estes diarios sao dedicados a ele e aos amigos maravilhosos que, de uma forma ou de outra, me acompanham por aqui.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

#54. Os Diários do Ashram - Amor, este tsunami/The Ashram Diaries - Love, a tsunami

[English version below]

O amor como um tsunami. O amor, este terremoto. Amor, letal, ou assim: uma navalha*, uma avalanche.

* * *

When I first met him I knew right there that my search was over. Nestas histórias de "encontrei o amor da minha vida" e, na vizinhança delas, a daqueles que encontraram Jesus, a Yoga, a vocação; nelas existe a imagem do encontro que contém tudo, que sobrepassa o impermanente, que encerra o tempo, que fecha as portas da memória, que dilui o vício da esperança - que esvazia a expectativa, uma navalha naquilo que quer alguma coisa que a gente não sabe bem o que é para um dia que a gente não sabe bem quando vai chegar.
Estas histórias, contadas retrospectivamente são meio assim: tudo agora está completo, e tudo sempre foi, mas só precisava ser encontrado. My search is over.

Dos lados de cá, o amor sempre me pareceu a um só tempo o sinônimo e a antítese do absoluto. Contido desde sempre dentro da minha compreensão como a única coisa que importa, ele pareceu sempre escapar, sempre insuficiente em si mesmo, sempre possível de mais e ainda assim sempre irrealizado. Minha fome constante, minha decepção permanente, o amor que eu sinto é maior do que eu e ao mesmo tempo me esmaga porque nunca me dá tudo que pode. Nunca meus companheiros ou amigos ou família parecem transbordar a fronteira do amor que eu espero e que eu sinto aqui, dentro de mim ( como é que você não percebe?); e então o vazio, a sensação de que algo falhou, e o abandono tem as as mesmas proporções do amor infinto, mas do lado avesso.

E assim, do lado certo e do lado avesso, pendurada entre o amar inevitavelmente incompleto e a solidão das expectativas frustradas, eu chego no começo de setembro a uma comunidade alternativa no meio da Serra Nevada junto com o Marvin. É de noite, a gente senta com uma menina alemã em volta da fogueira e eu escuto ela convidando: tem uma mulher iluminada que vive na vila aqui do lado. Vamos?

* * *

Estou aqui, na frente dela, mas não vejo luzes saindo da Saraswathi Ma, nem sinto que estou fora do meu corpo. Nada. Nenhuma queimação, nenhum chamado, nada se apresenta como um sinal cósmico. Pelo contrário, esta mulher é a mais prosaica das criaturas, um pouco mais velha do que eu, unhas do pé pintadas de vermelho, uns brincos grandes, uma pulseirinha de pérolas. A fronteira entre nós duas é tão pequena, e o fato de que ela é assim, meio Mariana, me coloca um abismo: se ela despertou, como é que se parece tanto comigo?

Fico ali, sentada, ouvindo, e alguma coisa de mim levanta. Vou fazer uma pergunta na frente de toda essa gente que eu nunca vi na vida: "Saraswathi, o que e intuicao?"

E pluft. Sem fogos de artificio de nenhuma sorte, meu coracao bate tranquilo enquanto ela fala comigo. Ela ela fala devagarinho, calma, com um acento britanico de urso de pelúcia, e eu nao tenho nada a nao ser uma sensacao de estranhamento. Deve ser isso, porque a única coisa que eu consigo sentir aqui é que ela fala de um lugar que eu reconheco, mas que nao sei muito bem onde fica. Ela nao tenta me convencer, mas de algum jeito eu entendo o que ela quer dizer sem entender muito bem como.

E de noite, de volta às nossas barracas. "It´s so weird, Marvin... She speaks from somewhere that is not the mind - yet it is doesn't challenge my intelligence, man".

* * * E depois disso eu ja nao lembro muito bem como foi - mas sei que foi rápido.
Dois dias depois eu estou acampando num jardim pra fazer um retiro silencioso com Mooji, que é um dos professores dela.
(Sei que nunca vou descrever a alegria que eu senti ao ver este homem pela primeira vez.)
Uma semana depois volto à Finca La Luz, onde vive Saraswathi, e sem entender direito por que eu simplesmente choro quando ela me olha. Foi assim, e durou 2 segundos: nos olhos dela eu vi o infinito, e o infinito era vazio. E quando ela olhava pra mim, e eu pra ela, era como se ela olhasse para todas as pessoas naquela sala. Entendi que tinha visto o Aleph do Borges.

Volto pra Genebra, arrumo minhas coisas, e em um mês estou aqui, na Andaluzia: sem cabelo, vivendo no ashram dela junto com outras 4 meninas. Eu, a doutoranda dos pensamentos complexos - eu agora estou aqui, com a cabeça aos pés da minha professora, sabendo que só existe este lugar no mundo, já que o lugar na verdade nao importa muito.


When I first met you I knew right there that my search was over.


Este é o primeiro de uma série de diários sobre os 20 dias que eu passei na Finca La Luz entre outubro e novembro de 2013.

Toda a devoçao do mundo ao Mooji e à Saraswathi: obrigada de novo, meus professores queridos, por cruzarem meu caminho quando eu atravessava a Espanha de bicicleta sem estar muito interessada em onde chegar.


Aí está: meu primeiro encontro com Saraswathi virou vídeo - e eu ainda aqui, de cabelo comprido e roupa de ciclista




Meu outro professor. Lindo, lindo: Mooji, eu sei que logo vou estar na sua Presença



* "Love´s a knife" - essas palavras nao sao minhas: justiça seja feita, eu emprestei da Saraswathi Ma
* "Finca La Luz" nao é literalmente um ashram permanente de Saraswathi Ma, mas um espaço de silêncio em Órgiva, Andaluzia, onde ela ofereceu sua presença durante seis meses entre junho e novembro de 2013. Ma agora está em trânsito, e sua agenda pode ser consultada em www.saraswathima.org
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[English version]



Love like a tsunami . Love, this earthquake. Love, lethal love or so : the sharpest knife *.
:an avalanche.

***

"When I first met him I knew right there that my search was over". In these stories of "I found my soulmate" or of those who have encountered Jesus, their Yoga path, their vocation or sense of mission in this lifetime - in all these stories I have always recognized the image of some sort of Absolute. Although alien to my own experience, I could see right away that they spoke in their own way of an Encounter which contained all encounters, which surpassed the impermanence, which stopped the time into Now, which was able to shut the doors of memory and dilute the addiction to hope. The ultimate Encounter would be that one that could render every sense of expectation senseless - there´s no use for waiting for something. It´s all given, it´s all there. My search is over.

As for love, I would say that love, hidden inside my own little Mariana box, love always appeared to me in a quite contradictory manner.  It has always been crystal clear to me since I was a child: love and only love is real. Yet why has it always showed itself as the synonym and the antithesis of the Absolute? I've always come to you, love, but you've ever seemed to escape from my hands, always insufficient in itself - enormous but unavoidably unfulfilled. My constant hunger has your name, love, my everlasting disappointment is a big continent in which all the citizens are none other than you. And you've crushed me, for never did my lovers or friends or family, in my eyes they appeared never to exhaust love the way I saw it. And every time, every single day in which my hunger for you was not satisfied, then came this emptiness, this feeling that something failed. Abandonment, this is my sense of you, mister love - this is you, but inside out.

And it was just like this, oscillating from inside and inside out, that I arrived to an alternative community in the middle of the Sierra Nevada along with my beloved friend Marvin. Night, the beginning of September and we're sitting with a German girl around the campfire. It's late and I hear her saying: there is an enlightened woman who lives in the village next door. Shall we go meet her tomorrow?

***

There I was, right in front of her, but I saw no pink-violet-orangish lights coming out of Saraswathi Ma nor did I feel I was out of my body or some crazy stuff. Nothing. No burning inside, no cosmic call - absolutely nothing, nothing presented itself as to prove me I was in the presence of some sort of goddess. Rather, this woman is the most prosaic of creatures. A little older than me, toenails painted red, earrings and a pearl bracelet. Dressed just like any of my friends could, I sense that the border between us is so invisible that it almost does not exist. But the very fact that she could be a Mariana somehow establishes a gap in my perception of us: if she is indeed awakened, how come does she look so much like me?

I'm there around some twenty people, and all of us are seating in silence. Out of the blue something from me raises my hand: "Saraswathi what is intuition?"

And pluft. No fireworks cross the sky of Órgiva, but my heart beats peacefully as she answers my question. She speaks slowly with a British accent that makes me feel I'm in front of the most polite creature on Earth, having a mug of tea and discussing how life feels like in the countryside.  It doesn't feel neither good nor bad - it´s just strange. But there´s this one thing that triggers my attention - she's speaking from a place that I recognize, yet its exact address is not exactly clear. And there she is, speaking, not trying to convince me in any manner, but I understand what she means without knowing exactly how.

Night, we´re back in our tents: "It's so weird , Marvin ... She speaks from somewhere that is not mental - but it is does not challenge my intelligence, man ."

* * *

And after that it all came so fast that I can barely remember.
Two days later I was camping in somebody´s garden to participate in a 7-day silent retreat with a guy called Mooji - which is actually one of her teachers.
(And I swear nothing in this world can ever describe the joy I felt as I saw this man for the first time.)
A week later I return to the house of Saraswathi, and without understanding why I just cry when she looks at me. It lasts 2 seconds, but somehow in her eyes I see the Infinite, and the Infinite is empty. She looks at me, I sense as if she is looking at all the people in that room at the same time.
Yes, I got it: that's Borges' Aleph. This is definitely the full-meal Love, capital letters, I've been looking for. Impossible to be hungry at this lady's restaurant.

I come back to Geneva, pack my things and in a month I'm back in Andalusia. Now I have no hair and no house; now I'm living in her ashram along with 4 other girls.  Mariana, the PhD student of complex thoughts - here I am     now        head to the feet my teacher, not knowing where to go, yet knowing there´s nowhere to be.
And it doesn't really matter, for everywhere and anywhere are just exactly the same and at the same time.


When I first met you I knew right there that my search was over .

* * *

This is the first post of a series of diaries about my 20 days at the Finca La Luz between October and mid-November 2013.

All my gratitude to Saraswathi Ma and Mooji for finding my way as I crossed Spain with no final destination.



Yes, yes - the moment of my first encounter with Saraswathi Ma was actually recorded and can be found at YouTube



Mooji, the Beautiful: happy because I know soon I will be in your Presence



* "Love´s a knife" - those are Saraswathi Ma's words
* "Finca La Luz" is not a permanent ashram of Saraswathi Ma - it is a space of silence in Órgiva, Andaluzia, where she offered us her Presence during six months between June and November/2013. Ma is now travelling, and her scheduled can be found at her website: www.saraswathima.org 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

#32. Diários de bicicleta, dia 2 - montanha acima até Vitoria

[English version below]
Dia 2
Beasain-Vitoria, 80km,MONTANHA, valezinhos micro, ciclistas profissionais por todos os lados - mas só no planinho, claro

De pé às 5:50, na estrada às 7, perdida meia hora, na montanha às 7:30.
Ninguém na rua. Morrendo de vontade de tomar um café com leite, meu corpo hoje nao vai a lugar nenhum. Tenho um medo desgraçado, hoje eu nao vou conseguir. Estatégia pare de pensar e pedale, piloto automático, vamos lá, coloca uma música aí no ipod e suba numa relax.
Tento Sigur Rós, mas só me dá melancolia e mais medo. Olho e vejo que lá em cima da montanha está uma neblina incrível. Aqui embaixo já tá chovendo.
Paro, coloco o casaco de chuva, chega. Vamos ouvir o novo do Daft Punk e subir, tenha paciência com seu corpo, Mariana nervosinha. Up we go.

Está uma chuva fininha e a montanha é linda. O asfalto é lisinho, às vezes passam uns carros. Os velhinhos dentro deles cruzam por mim bem devagarinho e dao tchauzinho, riem, as vezes buzinam. Agora é o segundo quilometro de subida e sou eu, a bike e Lose Yourself to Dance; já nao penso em nada e quando vejo estou lá em cima. 7.5km de subida e 655 metros de altura em Otsaurte, um desnivelamento de dar vontade chorar. Tem um café aberto, paro e peço um pingado. Dois ciclistas profissionais vestidinhos com roupinhas colantes e em suas road bikes acabam de chegar; um deles grita para o outro: ¿me quieres matar, hombre? Dois segundos depois eles olham minha bike com os alforges, pagam seus respeitos ao vizinho de mesa que está vestindo umas roupas esportivas e que eles pensam ser o dono da bike, e descem a montanha pelo outro lado. Agora sei como uma mártir anônima se sente.

A descida pra Altsasu é indescritível. Já sao umas 9 da manha, e pego a antiga estrada nacional sem ninguém. Pedalo sozinha olhando as montanhas, vou ouvindo Wilco e pensando na Ritinha. Nao existe nenhum outro lugar no mundo onde eu gostaria de estar agora.

Depois de 50 quilômetros minhas pernas já nao funcionam direito. É plano com algumas subidas, mas meu joelho direito dói, minhas costas estao cansadas. Cruzo muitos, incontáveis pelotoes de ciclistas profissionais. Devo ter encontrado nao mais que 3 mulheres ciclistas no caminho, só uma delas sozinha. Colocando em cima os alforges, deve ser por isso que eu chamo tanta atençao. Os ciclistas passam por mim e as vezes alinham pra perguntar onde eu vou. Encontro um ciclista mais velho que ja fez o caminho, me dá varias dicas e depois continua. ¡Valiente!, escuto aí por todas as partes, minha musiquinha na estrada do segundo dia.

Chego em Vitoria morta, largo as coisas no hostel e procuro um lugar pra comer. Nao existe comida sem carne. Como todas as porcarias fritas possíveis e me contento em passar a fome dos vegetarianos na Espanha. Descolo um kit kat na máquina do hotel, peço um Jack Daniels duplo e umas pedrinhas de gelo pra colocar no joelho e vou pro hostel. Coloco as pernas pra cima e começo a fazer uma massagem perto dos joelhos. Dói, e eu alongo, alongo, alongo...

Acordo umas duas horas depois, dormindo toda torta na cama. Já tinha dormido sem querer lendo um livro, mas dormir alongando é a primeira vez.




domingo, 30 de junho de 2013

#31. Diarios de bicicleta, dia 1 - de onde começa El Camino


Dia 1
Irun-Beasain, 70km, 5hs de pedal, montanha e vale

Era ontem, dia 29 de junho deste nosso calendário cristao e largada da centesima edicao do Tour de France, e eu começava meu primeiro dia de peregrinaçao em bicicleta a Santiago de Compostela. Deixei o albergue em Irun, no País Basco, às 7 da manha. Up!, mapa na mao e me perco na primeira quadra, onde estao estas malditas flechinhas amarelas que indicam o caminho hasta Santiago? Pronto, encontrei, aí está, agora sou eu na trilha para pedalar 4 minutos e logo descobrir que realmente o lugar onde caminham os peregrinos é impassavel para os ciclistas. A peregrinacao em bike é diferente,algumas vezes pelo caminho, outras por estradas alternativas que você mesmo tem que procurar no mapa. (E a Espanha é maravilhosa, mas definitivamente nao é a Suíça das ciclovias...). Ladeira acima, desço da bicicleta, caminho uns 5 quilômetros entre meia dúzia de pereginos que apontam para mim em todas as línguas, que diabos esta ciclista bizarrona esta fazendo?  Pois bem: esta sou eu, caminhando morro acima e levando no braço uma bicicleta carregada com 10kg, morrendo de medo do pneu furar neste vale de pedras pontudas, a sapatilha de ciclista enfiando fundo no lamaçal, aquela cara de quem odeia existir antes das 9 da manha.
"Que inferno este caminho; onde caralhos fui me meter?": aí estao minhas primeiras impressoes sobre esta mistica peregrinacao.
5km assim, e eis que encontro uma estrada alternativa cortandoa trilha no meio do nada - ah, a paz do asfalto, vivam as road bikes!  Saco meu mapa e meu espanhol ruim e abordo o velhinho pescando no riacho no meio do Lugar-Nenhum - señor, como llego yo hasta Hernani? De ruela no meio do nada a estradas nacionais, às 8 eu já sentia meu pobre joelhinho enquanto subia as montanhas infinitas até Oiartzum and beyond, e 70km depois eu chegava no albergue dos peregrinos em Beasain.
Sao 2:30 da tarde. 50 camas, nenhum peregrino. Mariana, a hipster do Caminho, resolveu escolher uma rota indie para começar a viagem. Em vez do Caminho do Francês, a rota preferida dos peregrinos gatinhos internacionais descolados caminhando em busca da iluminaçao, decidi começar pelo Caminho do Interior, um trecho que vai de Irun até Santo Domingo de la Calzada, e que simplesmente ninguém - repito: nin-guém - conhece.
"Onde caralhos fui me meter?"
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Faço meu registro no albergue, minha voz ecoando no nada de ninguém de lugar nenhum. Dois velhinhos voluntários me registram, sentam comigo, me mostram no mapa o tanto de rodovias e desvios que vou ter que pegar no dia seguinte. "Es muy duro para los ciclistas, no hay nadie en bici en eses lados."
E eis que chega Antonio, o responsavel pelo albergue. Foi ele quem criou este lugar lindo, no meio da rota do interior, sem preço - você paga em donativos. Uns 60 anos, normal, sandalias, ele fez o Caminho mais de 20 vezes, de todos os jeitos possíveis. Está empolgadíssimo porque em 26 dias vai fazê-lo de novo, combinando milhares de percursos diferentes. Mas nem fala sobre isso, nao está interessado nas minhas 257.432 perguntas que giram em torno da pergunta-base como é o caminho? Em vez de responder ele spluft, vê minha pobre bici esfarrapada, acha lindo uma lulher sozinha pedalando o caminho, diz que nunca viu isso, sai correndo, pega o carro e lá de dentro grita "vamos!", me enfia no banco do passageiro falando num espanhol meio basco que eu entendo mais ou menos, e vai subindo, subindo, uma rodovia estreitinha de mao dupla que serpenteia no meio da floresta, uns 40 minutos, e eu vou sentindo uma crescente e quase incontrolável vontade de vomitar porque ele sobe aquelas encostas correndo, tudo chacoalha dentro daquele carro, está ficando alto demais muito rápido, what the fuck... "Mira: es en esa carretera que tienes que subir mañana. Vas hacer ese camino mañana, ¡no te pierdas!"
Meu Jesus.
Ele estaciona o carro no meio da floresta. O dia está lindo, e vamos caminhando montanha acima. Vejo um cavalo com um cavalinho bebê de uns três dias e tenho vontade de chorar. Chegamos. Aí está: uma caverna com uma igreja dentro. Uma fenda, e para continuar o caminho é preciso abaixar até o outro lado. Abaixamos. Atravessamos. Um tapete de pedra e grama,o topo da montanha. Caverna de San Adrian, uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida.
Ele sabia que eu nao podia chegar de bici, o dia estava lindo e ele achou que eu devia ver com meus próprios olhos.
Continuei perguntando do Caminho enquanto descíamos. "Ya no sé yo lo que es lo Camino. Cada uno hace su Camino; el Camino es el tuyo. Y él no empieza aquí: empieza cuando saliste de casa para hacerlo: ahí empieza tu Camino".
Muchas Gracias, Antonio.
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Entao, para resumir, foi assim:
Eu saí no dia 14 de junho para fazer uma viagem de bici com minha companheira de esportes. Carol e eu pegamos um trem até a Bretanha, no norte da França, e pedalamos 1200km até a fronteira com a Espanha, a maior parte do tempo com um amigo irlandês que conhecemos na estrada. Chegamos, eu nao vi sentido em voltar - afinal de contas, já nao tenho mesmo casa em lugar nenhum.
E como estávamos a 5km de uma cidade-base para o caminho de Santiago de Compostela, remarquei minha passagem pro Brasil e decidi continuar até Santiago.
A história do meu Caminho, naquilo que der, eu vou contando aqui, quando der. Copiando do meu diário de viagem, sel elaboraçoes... Porque afinal de contas, eu estou no dia 2, e afinal de contas, nem internet, nem smartphone, nem nada. Thanks God eu ainda tenho meus joelhos. Mais ou menos.
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Entao rezem por mim nas encostas das montanhas.
 
Aqui está a página do facebook do albergue do Antonio:
https://www.facebook.com/albergue.debeasain?ref=ts&fref=ts

E a trilha sonora para uma ecumenica hipster mistica peregrinando em busca da iluminacao:




E eu prometo que vou contar melhor, inclusive minhas impressoes da viagem com a Carols, quando voltar pra vida normal - nao posso nem copiar meu diario daqueles dias, porque perdi o caderninho onde estava anotando as coisas num dia que a bici estragou na chuva...
Ainda nao comprei camera, entao, torçam ai pra Carols postar as fotos ou para eu encontrar uma lojinha de fotografia aberta fora do horário da siesta.

Buen camino, compañeros!

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

#13. Yoga em 10 minutos/10-minute yoga

[English version below]

Uma das vantagens de não adotar um sistema específico de yoga é a a possibilidade - ou a necessidade - de estar constantemente aprendendo e testando novas técnicas em si mesmo. Se por um lado a tarefa dá um trampo realmente infernal, por outro ela também ajuda a personalizar a prática, a torná-la mais criativa, menos padronizada, mais ligada à trajetória individual. À la Krishnamurti, em vez de gurus, professores e alunos: as posições se alternam, com o livre-pensamento e a verdade pessoal conduzindo o processo de autoconhecimento.

Do lado de cá, percebi que, por mais que eu deseje, a verdade é que não consigo seguir sistema nenhum. Por isso comecei a construir minha própria prática, e por enquanto vou achando bom, fazendo cursos aqui-e-ali, anotando tudo em caderninho, praticando todo dia ou sempre que dá, tendo mil idéias e aplicando em mim mesma as descobertas, eu minha própria cobaia no laboratório doméstico.

Uma técnica legal que descobri recentemente foram os "magic ten" - uma série de posturas de yoga encadeadas com a duração total de 10 minutos. Eles servem pra quem pratica há bastante tempo, pra quem quer iniciar uma prática em casa mas não sabe por onde começar, ou pra quem nunca fez yoga. Os "magic ten" são ótimos pra quem não tem tempo ou está cansado demais pra encarar uma hora e meia de contorcionismo, pra quem quer preparar o corpo pra meditar ou pra quem simplesmente acordou entrevado e quer dar uma esticadinha.  Aprendi fazendo uma aula de "Jivamukti Yoga" - uma linha bem recente criada por um pessoal em Nova York.

Eu uso os "magic ten" em casa, antes de fazer meus exercícios de respiração (pranayamas) e estou gostando bastante.  Às vezes faço depois da corrida, pra dar uma alongadinha mais legal.

Tenta os "magic ten" e depois me diz o que achou! O link: http://www.youtube.com/watch?v=fB6B9rQjEeU

Sobre Jivamukti: http://www.jivamuktiyoga.com/about/philosophy

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Those like me who find it difficult to embrace one specific, orthodox yoga system have at least one big advantage over others - or, seen from another angle, an extra concern -: they are pushed to constantly learning distinct techniques and to test them on themselves to create their own, personalized styles . That involves a heavy load of work, I know, but it also makes room for creativity - in fact, I think it is a distinct way of self-realization in which attention to one's experience becomes a key element in the Yoga journey.  Bringing Krishnamurti in, that means replacing gurus with teachers and students: we're always alternating between those two extreme roles, but in the end we're our own masters.


I have decided to take the non-path of personal Yogic chaos... but the good news is that I am now quite happy with my ever-ongoing learning process.  I keep taking courses, filling notebooks with impressions, changing my routine everyday and doing yoga poses madly both in my place, yoga studios and outdoors.  Recently I have learned this technique I'm quite excited about, the "magic ten". The "magic ten" consists of a series of alternate yoga poses whose execution does not take more than 10 minutes. They are suitable for those who have been into yoga for a while but they are also good for those who want to create a daily routine and don't know where to start - and as the exercises are quite gentle, I guess it applies even to those who have never experienced yoga. It's perfect for days in which you're dead tired, as a preparation for meditation or simply as a stretching exercise when you're feeling too stiff.

I have found about them in class of "Jivamukti Yoga" I took recently. From my side, I use the "magic ten" either before starting breathing exercises (pranayama) or as a stretching method after jogging.  Try them and let me know what you think!

Magic ten:
 http://www.youtube.com/watch?v=fB6B9rQjEeU

Jivamukti:
http://www.jivamuktiyoga.com/about/philosophy

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

#6. Sobre espiritualidade e pertencimento


L'homme est son propre maître et il n'y a pas d'être plus élevé, ni de puissance qui siège, au-dessus de lui, en juge de sa destinée. "On est son propre refuge, qui d'autre pourrait être le refuge?", dit le Bouddha.*
Regard experiences as if they were about to disappear.  What is it that anchors them in reality? What would you save of them? What would you give up?  Only someone who has achieved independence and detachment, someone whose homeland is 'sweet' but whose circumstances make it impossible to recapture that sweetness, can answer those questions.**

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Foi agora, em julho.  Eu caminhava em Helsinki sozinha, o verão mais frio da minha vida, quando descobri que simplesmente não me encaixava. A estúpida descoberta espetacular.  Retardada no tempo, claro, sempre melhor saber disso aos 20 que aos 32.  Mas espetacular mesmo assim, não importa.
É que sempre tive a sensação de não pertencer a nada e a ninguém, desde pequenininha solta e um pouco deslocada por aí.  Arrepio a turmas grandes na escolinha e depois no colégio, ah!, eu já passei muito recreio brincando sozinha por não me dar bem com qualquer ética de grupo. Uns anos depois, já um pouco mais crescida, comecei a procurar aquele lugarzinho, no espaço e no tempo, que fosse exatamente, em cada milímetro, o lugar certo de se estar, onde eu finalmente pudesse dizer e sentir:   é aqui que eu sou.  A cidade onde as coisas estivessem acontecendo, a profissão que fosse sinônimo de vocação, o emprego que me permitisse realizar tudo, tudo mesmo, que minha imaginação e meu intelecto estivessem com vontade de fazer, sob pena de não cumprir minha missão nesta vida.  Não aceito nada menos - pertencer e exaurir possibilidades, voilà meu destino não cumprido sobre a face da Terra.  Que a vontade de realizá-lo como profecia tenha me levado de Curitiba pra Nova York pra Brasília pra Genebra pra Helsinki pra Paris, e de advogada para fotógrafa para assessora de direitos humanos para vegetariana e yogi e historiadora é motivo pra outro post.  Porque essa daqui é a epígrafe de um texto sobre espiritualidade, essa palavra que a modernidade quis expurgar da nossa casa mas que ainda é o elefante branco na nossa sala de jantar.

* * * 

Ser parte de uma religião é de alguma forma pertencer. É morar num país de pessoas que compartilham uma fé, e é além disso uma identidade - "ah, meu pai também é espírita!", "de qual orixá você é filho?", "não sabia que você era budista...".  Mas, pra mim, a primeira coisa que eu vejo em alguém que tem fé, não importa qual, é essa espécie de aura sagrada, esse vestir no próprio corpo algo que eu, eu realmente não sou capaz de viver, já que (como em todas as outras coisas), nunca consegui fazer parte de uma religião.  O cara que medita todos os dias de manhã, o evangélico que fala em línguas, o católico que paga promessa em Aparecida, a menina que faz a cabeça no terreiro e na saída dança num transe maravilhoso e o ateu convicto - todos, todos esses fazem visitinhas diárias para LáDosLadosDeLá.  Eles são os mensageiros, os guardiões dos portais, os viajantes entre dois mundos; eles compreenderam o sentido último, eles têm a chave do espírito, o segredo que une todos os tempos, e sobretudo eles serão salvos. Eu, eu não tenho mínima idéia de nada disso; ainda não consegui encontrar o ticket pro trem que vai pro lugar certo.

Claro que já tentei. Estive por todo lado, em várias práticas e cultos, mas é só aparecer um dogma, um pedaço de focinho de dogma, que pronto, tudo entra em crise.  Classicamente, minha primeira reação é tentar assimilar a Palavra e negar minha desconfiança ou crítica - vai, Mariana, obedece, sente o Poder, desta vez vai dar certo. Mas não, nada de catarse, nenhum presentinho pra mim: o tempo denuncia, começo a me achar ridícula repetindo aquelas coisas ou aqueles movimentos (essa minha desgraçada mente científica), falto uma ou duas vezes com minhas obrigações litúrgicas, e pronto, acabou, nunca mais apareço.  Depois, a reinterpretação: passa um tempo e eu compro alguns livros, vou de vez em quando no templo, dou umas rezadinhas que eles me ensinaram, mas do meu jeito, antes de dormir, acendo uma vela, enfio um pedaço do ensinamento do lado de todos os meus outros, rejeitando a metade, tudo isso num sincretismo que é muito, muito mais feio e esquizofrênico do que o Frankestein, e que justamente por isso não ousa muito sair do meu laboratório subterrâneo.

Assim, incapaz de me jogar sem rede de proteção em qualquer caminho religioso, é que sempre me senti algo entre injustiçada e um pouco brava com Deus.  Minha impossibilidade de ter fé em algum percurso religioso deve ser algo que denuncia um lado espiritualmente horroroso dentro de mim, e que eu infelizmente não consigo ver. Algo que, inacessível ao meu próprio consciente, eu sou incapaz de mudar.  Sou vítima de minha pequenez, da minha impropriedade de espírito, do meu baixíssimo nível de evolução, do meu provável karma tenebroso de outras vidas.  Por que, ave Maria puríssima, meus amigos tod@s descobriram O caminho de yoga que eles querem seguir, menos eu? Por que eu tenho sempre que querer uma respiraçãozinha diferente na minha prática yogi, quando os mestres dizem que não pode não pode não pode? Por que todo mundo ou é road biker, ou mountain biker, ou cicloturista, e eu continuo aqui, fazendo cicloturismo de road bike em trilha de terra?  No fundo no fundo, sempre vivi a impossibilidade de encontrar um caminho  pra mim como a negação do direito que eu tinha de viver minha espiritualidade.  Um que era dado para outros mas negado pra mim, que buscava tanto - e por que, qual a justiça que existia nisso?  Por isso, talvez, sempre achei que Deus não podia ser uma coisa tão boa assim.

Até ir pra Finlândia, que foi uma continuação mais ao norte do meu exílio em Genebra, mais ao sul.  Porque ali, naquele lugar, foi que eu cheguei no máximo da minha experiência de exilada: é um despertencimento tão reafirmado que não tem nenhum, mas nenhum jeito de apagar.  Está na cara: na Finlândia dos loiros-de-olho-azul eu sou claramente não finlandesa, e descobri ali que mesmo a minha cor, que sempre foi um dado pra mim, é diferente pra eles: eu não sou branca, sou oliva.  Ali fala-se uma língua que não parece com nada que existe neste planeta, e não interessa com quem eu esteja conversando e em que língua, na minha testa sempre vai estar escrito em letras maiúsculas - ESTRANGEIRA.  E num lugar de ser estrangeira o tempo todo por excelência, num lugar em que tentar pertencer é fingir ser uma coisa diferente, em que ninguém conhece você, em que o despertencimento é o cartão de visitas indefectível, o que é que sobra como identidade pra uma pessoa que não tem nem religião e que já teve todas as profissões do mundo?  Pra mim, sobrou lá minha deliciosa gororoba espiritual, minha síntese pessoal polissêmica e multifatorial, que é só minha, que é de tudo que eu sou e de tudo que eu vivi, e sobretudo de tudo aquilo em que eu resolvi acreditar, sendo coloridamente mariana.  E que isso não tem nem uma gotinha de descrença, mas é pra mim uma fé atravessada pela minha experiência, sem mestres ou juízes, sem inferno ou paraíso.  Depois daquilo, escolhi abraçar de vez essa terra de não pertencer a lugar nenhum, esse lugar onde eu misturo orgulhosa Buda com Edward Said. Sem nenhum guru e com muitos professores para ajudar o meu espírito nessa vida, eu caminho por aí, pedaço de qualquer coisa, mestiça crioula híbrida esquizôfrenica - Frankeinstonha contente cumprindo meu destino em todos os lugares da face da terra.




[*a citação é de "L'enseignement du Buddha d'après les textes plus anciens", de Walpola Rahula].
[**citação de "Reflections on Exile", do Edward Said]

domingo, 9 de setembro de 2012

#1. Sobre LáDosLadosDeLá

LáDosLadosDeLá é um lugar no espaço.  Ele é, por definição, o endereço do que não está do lado de cá.  É o lugar dos aléms, aquele lugar pra onde vai o super-homem dizendo "pra cima e avante", e exatamente o mesmo para onde um dia se atiraram os homens das caravelas (esses mesmos, os que chegaram LáDosLadosDeCá). É onde vive quem já morreu, sendo tanto, ou ao mesmo tempo, da ordem dos intocados pelo conhecimento e da família das coisas que a ciência não descobriu. Do signo daqueles que nunca se dão ou darão a conhecer, LáDosLadosDeLá vivem aqueles que simplesmente não reconhecem a língua da disciplina científica.  É o lugar onde estão os que se recusam a revelar-se inteiros: 1. lugar dos pedaços que desafiam as metafísicas todas do mundo e nunca formam nenhum organismo; 2. ou, DoLadoDoAvesso dele mesmo, é também onde co-habitam essas criaturas da totalidade sem limites, que de tão imensas a gente não consegue imaginar - o infinito, o imortal e seus cônjuges. LáDosLadosDeLá, sendo o lugar dos aléms e desconhecidos, é portanto o lugar dos mistérios e dos espíritos, do que não se apresenta a não ser como metáfora.  A gente se aproxima    vupt    pega um relance de olho num pedaço do rabo ou do bico, mas nunca entende direito que bicho é, se é que tem bicho ali.  Nunca o lugar dos descritivos, mas do pictórico.  É o lugar da experiência, não do sentido.
* * *
-Como um passeio de bicicleta, minha metáfora particular da vida, que é ao mesmo tempo estar e partir.
- Como as coisas que eu sinto sozinha num tapete de yoga, e que estão pra depois da ordem do físico e que eu nunca consigo explicar sem deixar meu interlocutor sem impressão de estar falando com uma hippie.
- Como minha soberba e arrogante dignidade vegetariana.
* * *
Porque é dessas coisas que eu quero falar.  E falar delas LáDosLadosDeLá, que sendo por definição o contraconceito assimétrico de AquiDosLadosDeCá, do que a gente conhece, é a casa que tem uma placa Exílio, em um dourado meio descascando, pregada na porta.  Fique à vontade, pode entrar: a casa é sua também.