sexta-feira, 30 de novembro de 2012

#11. Susan Sontag: Amor/Love

Já faz um tempo que eu não escrevo, e a culpa é do meu projeto de doutorado.  Mas ele não tem culpa de nada, muito pelo contrário.  Porque nesse momento de simbiose absoluta, eu já nem sei quem eu seria sem ele.  E por isso: obrigada, doutorado, por me dar suficiente inspiração pra reconhecer o quanto esse livro da Susan Sontag é lindo.
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It's been a while, now: blame it on my PhD.  But it is not to be blamed, for in this symbiotic moment I cannot know who I am apart from my close relationship with it. So thanks, PhD topic, for giving me the inspiration to recognize how beautiful these writings by Susan Sontag are.
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http://www.brainpickings.org/index.php/2012/08/03/susan-sontag-on-love/


domingo, 21 de outubro de 2012

#10. Sobre o amor

 Para Julieta

Venho pensando no amor.   Comecei sem querer, lendo o Krishnamurti, que num dos livros dele me colocou essa pergunta aqui, difícil pro meu coração cheio de referências acadêmicas e de quatro anos de psicanálise: dá pra se relacionar com o outro sem se machucar e sem sentir um rancor crescente, mesmo quando o querer relacionar-se profundamente é justamente criar essa possibilidade, ou seja, estar aberto para sentir tudo isso, pra viver nos limites do mau-humor cotidiano, dos nossos dias de tédio e de ter sono, das diferenças que em dois segundos já viraram um monstrinho logo monstrengo de mágoa e outras asquerosidades sentimentais em geral?  E o jeito como ele redimensionou esta pergunta, antes de responder, fez choverem estrelinhas aqui, nesse meu quarto de estudante numa Suíça do quase-inverno.  Porque ele respondeu dizendo que esta seria uma questão impossível, e pra ela, só uma resposta impossível seria razoável.  Essa resposta impossível, pra ele, é o amor.*
Talvez eu tenha ficado tão sensível ao Krishnamurti ali porque a pergunta sobre o amor já tinha sido enfiada na minha cabeça não fazia muito tempo. Uns dias antes eu tinha falado com a Ritinha no Skype e ela me veio com essa, muito boa.  "Então, Mari, amor é o quê?".  Amor, pra ela, é amar e ponto.  Você não ama porque o outro te faz sentir bem, por exemplo - se fosse, logo que você sentisse que ele/ela não era mais capaz de provocar isso, seu amor acabava imediatamente.  Amor não é assim; é um tipo de coisa à qual a gente não renuncia e que, fazendo, é como matar uma parte de si (já fiz; a gente nunca se recupera direito). Amor é uma coisa que a gente sente e é gigante e maior do que a gente mesmo, mas que não pesa porque é bom; amar, portanto, é do registro dos impossíveis, do transcendente, do ládosladosdelá - muito, muito mais do que do aquidosladosdecá.
Ritinha, Krishnamurti e as pecinhas de dominó caindo, todas elas com corações em vez de bolinhas, um   dois   três   quatro  cinco   seis     e  zero.  O meu repertório de experiências, minhas imagens todas tentando fazer sentido do que é o amor pensado assim, como a pergunta impossível, a única que realmente importa.  E eu lembro do André Abujamra cantando "o infinito é infinito, o infinito é o amor, o infinito nunca acaba porque nunca começou". E experimenta fazer uma hora de prática de yoga especialmente pra Anahata, o chacka do coração, do amor incondicional e compassivo - com essas posturas em que você coloca o ombro pra trás e abre bem o tórax; me diz, então, se você não sai com vontade de beijar todo mundo na rua, abraçar árvore, e se não consegue ver cada folhinha da árvore mais nitidamente do que nunca? A vaca olhando pro bezerro. O olhar do meu cachorro quando eu chego em casa - ah, e eu tenho que dizer que o olhar do cachorro, no meu dicionário pessoal (se ele existisse), provavelmente seria a definição primeira de amor. O Tom Zé e o Hermeto Pascoal, eles são o próprio infinito, a criação liberada de tudo - e tem como qualificar aquilo que eles fazem sem usar como referência, aberta ou implícita, isso que eles parecem sentir por tudo, essa erotização absoluta do mundo? Falta de ar sem querer quando a gente sente cair um floco de neve    lindo   na bochecha; risada de criança de quatro anos; medo do dia em que a mãe vai morrer; qualquer música do Flaming Lips; "te considero pra caralho" na mesa do bar.  Pensando bem, não sei se existe alguma coisa que não seja ilusão fora disso: pegando na mão do Abujamra de novo, "só o amor é real".

<3  <3  <3
Referências pra você, então, com amor:

*Aqui vai o trecho do Krishnamurti, em francês, de "De l'amour et de la solitude", p. 18:"Il s'agit là du problème majeur de l'existence: savoir comment vivre une vie où l'esprit aborde la relation sans avoir été ni bléssé ni gauchi. Est-ce chose possible? Nous avons posé là l'impossible question. C'est une question impossible, dont il faut trouver l'impossible réponse. Car ce qui est possible est médiocre, déjà achevé, défunt; mais si l'on pose l'impossible question, l'esprit doit trouver la réponse. En est-il capable? L'amour, voilà la réponse. L'esprit qui n'enregistre nulle insulte, nulle flatterie, sait ce qu'est l'amour".

* Aqui vai o vídeo de "Essa Música Não Existe", do André Abujamra:

http://www.youtube.com/watch?v=ZuyDp3kkV4g


* Aqui vai a página "10paezinhos" do Fábio Moon e do Gabriel Bá - dois irmãos cartunistas maravilhosos, que têm as tirinhas mais cheias de amor do mundo:

http://10paezinhos.blog.uol.com.br/

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

#7. Música de Yoga


Não    é um jeito de dizer     curtinho    a nossa ilusão de que existem fronteiras bem desenhadas, impermeáveis, entre o eu e o você, entre o aqui e lá, entre o de dentro e o de fora, entre o homem e a mulher, o certo e o errado, o erro e o acerto, o finito e o infinito, o começo e o fim, a puta e a santa, a transcendência e o mundano - e principalmente entre o sim e o não.
Eu Não sou você, aqui não é lá, o que tá dentro não tá fora, eu sou mulher e você é homem, eu acertei e você errou de novo, o que é finito é da ordem do que não pode continuar pra sempre, eu sou a transcendência e não parte desse mundo, por que você me traiu se eu sempre te dei tudo? - uma coisa é uma coisa    outra coisa é outra coisa.

Na Yoga existem muitos Nãos, e um deles diz que a melhor forma de praticar as posturas é em silêncio, ouvindo a própria respiração.  Eu gosto mais da ordem dos Sims, do você é um pouco de mim e eu sou um pouco de você, e de o silêncio só existe porque a gente sabe que ele tá dentro da música também.  Por isso, hoje a minha dica é esse site incrível que a Renatinha indicou, de um cara que é professor de yoga, lindo, e que compõe umas músicas maravilhosas que a gente pode ouvir enquanto pratica:

http://www.andreasloh.com/yoga/yoga-piano/

#7. Yoga Music

No   that can be a short way to say     : I believe in the sharp borders, and they separate the me from the you, here from there, inside from outside, women from men, right from wrong, successes from failures, the finite from the infinite, beginning from end, the whores from the virgins, the divine from the material - and specially yes from no.
I am Not you, here's not there, that which lies inside definitely cannot be outside, I'm a woman-you're a man, we are supposed to be together forever, why did you betray me if I've given you everything I had? - one thing is one thing      other things are other things.
In some ways, Yoga as it is usually taught to us in gyms is the land of many Nos, and one of them says that the only acceptable way one should practice the poses/asanas is in complete silence, for that allows one to hear her own breath.  But I do love the land of Yes's, so today I insist for you to check this website recommended by my friend Renatinha - it's by this guy that teaches Yoga in Berlin and that composes amazing songs to hear while finding our way through all sorts of yoga poses:

http://www.andreasloh.com/yoga/yoga-piano/

And promise you here an experience in the land of In Betweens.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

#6. Sobre espiritualidade e pertencimento


L'homme est son propre maître et il n'y a pas d'être plus élevé, ni de puissance qui siège, au-dessus de lui, en juge de sa destinée. "On est son propre refuge, qui d'autre pourrait être le refuge?", dit le Bouddha.*
Regard experiences as if they were about to disappear.  What is it that anchors them in reality? What would you save of them? What would you give up?  Only someone who has achieved independence and detachment, someone whose homeland is 'sweet' but whose circumstances make it impossible to recapture that sweetness, can answer those questions.**

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Foi agora, em julho.  Eu caminhava em Helsinki sozinha, o verão mais frio da minha vida, quando descobri que simplesmente não me encaixava. A estúpida descoberta espetacular.  Retardada no tempo, claro, sempre melhor saber disso aos 20 que aos 32.  Mas espetacular mesmo assim, não importa.
É que sempre tive a sensação de não pertencer a nada e a ninguém, desde pequenininha solta e um pouco deslocada por aí.  Arrepio a turmas grandes na escolinha e depois no colégio, ah!, eu já passei muito recreio brincando sozinha por não me dar bem com qualquer ética de grupo. Uns anos depois, já um pouco mais crescida, comecei a procurar aquele lugarzinho, no espaço e no tempo, que fosse exatamente, em cada milímetro, o lugar certo de se estar, onde eu finalmente pudesse dizer e sentir:   é aqui que eu sou.  A cidade onde as coisas estivessem acontecendo, a profissão que fosse sinônimo de vocação, o emprego que me permitisse realizar tudo, tudo mesmo, que minha imaginação e meu intelecto estivessem com vontade de fazer, sob pena de não cumprir minha missão nesta vida.  Não aceito nada menos - pertencer e exaurir possibilidades, voilà meu destino não cumprido sobre a face da Terra.  Que a vontade de realizá-lo como profecia tenha me levado de Curitiba pra Nova York pra Brasília pra Genebra pra Helsinki pra Paris, e de advogada para fotógrafa para assessora de direitos humanos para vegetariana e yogi e historiadora é motivo pra outro post.  Porque essa daqui é a epígrafe de um texto sobre espiritualidade, essa palavra que a modernidade quis expurgar da nossa casa mas que ainda é o elefante branco na nossa sala de jantar.

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Ser parte de uma religião é de alguma forma pertencer. É morar num país de pessoas que compartilham uma fé, e é além disso uma identidade - "ah, meu pai também é espírita!", "de qual orixá você é filho?", "não sabia que você era budista...".  Mas, pra mim, a primeira coisa que eu vejo em alguém que tem fé, não importa qual, é essa espécie de aura sagrada, esse vestir no próprio corpo algo que eu, eu realmente não sou capaz de viver, já que (como em todas as outras coisas), nunca consegui fazer parte de uma religião.  O cara que medita todos os dias de manhã, o evangélico que fala em línguas, o católico que paga promessa em Aparecida, a menina que faz a cabeça no terreiro e na saída dança num transe maravilhoso e o ateu convicto - todos, todos esses fazem visitinhas diárias para LáDosLadosDeLá.  Eles são os mensageiros, os guardiões dos portais, os viajantes entre dois mundos; eles compreenderam o sentido último, eles têm a chave do espírito, o segredo que une todos os tempos, e sobretudo eles serão salvos. Eu, eu não tenho mínima idéia de nada disso; ainda não consegui encontrar o ticket pro trem que vai pro lugar certo.

Claro que já tentei. Estive por todo lado, em várias práticas e cultos, mas é só aparecer um dogma, um pedaço de focinho de dogma, que pronto, tudo entra em crise.  Classicamente, minha primeira reação é tentar assimilar a Palavra e negar minha desconfiança ou crítica - vai, Mariana, obedece, sente o Poder, desta vez vai dar certo. Mas não, nada de catarse, nenhum presentinho pra mim: o tempo denuncia, começo a me achar ridícula repetindo aquelas coisas ou aqueles movimentos (essa minha desgraçada mente científica), falto uma ou duas vezes com minhas obrigações litúrgicas, e pronto, acabou, nunca mais apareço.  Depois, a reinterpretação: passa um tempo e eu compro alguns livros, vou de vez em quando no templo, dou umas rezadinhas que eles me ensinaram, mas do meu jeito, antes de dormir, acendo uma vela, enfio um pedaço do ensinamento do lado de todos os meus outros, rejeitando a metade, tudo isso num sincretismo que é muito, muito mais feio e esquizofrênico do que o Frankestein, e que justamente por isso não ousa muito sair do meu laboratório subterrâneo.

Assim, incapaz de me jogar sem rede de proteção em qualquer caminho religioso, é que sempre me senti algo entre injustiçada e um pouco brava com Deus.  Minha impossibilidade de ter fé em algum percurso religioso deve ser algo que denuncia um lado espiritualmente horroroso dentro de mim, e que eu infelizmente não consigo ver. Algo que, inacessível ao meu próprio consciente, eu sou incapaz de mudar.  Sou vítima de minha pequenez, da minha impropriedade de espírito, do meu baixíssimo nível de evolução, do meu provável karma tenebroso de outras vidas.  Por que, ave Maria puríssima, meus amigos tod@s descobriram O caminho de yoga que eles querem seguir, menos eu? Por que eu tenho sempre que querer uma respiraçãozinha diferente na minha prática yogi, quando os mestres dizem que não pode não pode não pode? Por que todo mundo ou é road biker, ou mountain biker, ou cicloturista, e eu continuo aqui, fazendo cicloturismo de road bike em trilha de terra?  No fundo no fundo, sempre vivi a impossibilidade de encontrar um caminho  pra mim como a negação do direito que eu tinha de viver minha espiritualidade.  Um que era dado para outros mas negado pra mim, que buscava tanto - e por que, qual a justiça que existia nisso?  Por isso, talvez, sempre achei que Deus não podia ser uma coisa tão boa assim.

Até ir pra Finlândia, que foi uma continuação mais ao norte do meu exílio em Genebra, mais ao sul.  Porque ali, naquele lugar, foi que eu cheguei no máximo da minha experiência de exilada: é um despertencimento tão reafirmado que não tem nenhum, mas nenhum jeito de apagar.  Está na cara: na Finlândia dos loiros-de-olho-azul eu sou claramente não finlandesa, e descobri ali que mesmo a minha cor, que sempre foi um dado pra mim, é diferente pra eles: eu não sou branca, sou oliva.  Ali fala-se uma língua que não parece com nada que existe neste planeta, e não interessa com quem eu esteja conversando e em que língua, na minha testa sempre vai estar escrito em letras maiúsculas - ESTRANGEIRA.  E num lugar de ser estrangeira o tempo todo por excelência, num lugar em que tentar pertencer é fingir ser uma coisa diferente, em que ninguém conhece você, em que o despertencimento é o cartão de visitas indefectível, o que é que sobra como identidade pra uma pessoa que não tem nem religião e que já teve todas as profissões do mundo?  Pra mim, sobrou lá minha deliciosa gororoba espiritual, minha síntese pessoal polissêmica e multifatorial, que é só minha, que é de tudo que eu sou e de tudo que eu vivi, e sobretudo de tudo aquilo em que eu resolvi acreditar, sendo coloridamente mariana.  E que isso não tem nem uma gotinha de descrença, mas é pra mim uma fé atravessada pela minha experiência, sem mestres ou juízes, sem inferno ou paraíso.  Depois daquilo, escolhi abraçar de vez essa terra de não pertencer a lugar nenhum, esse lugar onde eu misturo orgulhosa Buda com Edward Said. Sem nenhum guru e com muitos professores para ajudar o meu espírito nessa vida, eu caminho por aí, pedaço de qualquer coisa, mestiça crioula híbrida esquizôfrenica - Frankeinstonha contente cumprindo meu destino em todos os lugares da face da terra.




[*a citação é de "L'enseignement du Buddha d'après les textes plus anciens", de Walpola Rahula].
[**citação de "Reflections on Exile", do Edward Said]