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terça-feira, 15 de setembro de 2015

#75. Minha bicicleta nova, os fins e os começos/My new bicycle, the ends and the beginnings

[English version below]

Hoje comprei uma bicicleta de viagem. Minha nova companheira vem pra substituir a antiga, aquela que me atravessou por mais de três meses em cinco mil quilômetros divididos entre a França e a Espanha. Há dois anos a viagem terminava e a gente tomava o avião de volta pra Suíça. Três meses depois ela seria roubada na frente da biblioteca da universidade, em Genebra.
Quem diria.
Minha nova bicicleta custou metade do preço daquela outra. É grande, pesada, robusta, barata, alemã, grosseira, artesanal. Comprei de um velhinho que não fala a mesma língua que eu e que organiza excursões ciclísticas na Tailândia, em Cuba e na Europa. Ele monta todas as bicicletas com os mesmos componentes, pinta os quadros do mesmo verde fosforescente e prega em cada um deles o mesmo adesivo. Velociped. Quando o verão acaba e a temporada de excursões termina, ele abre o barracão, coloca as velhas à venda e começa a renovar a frota pro ano seguinte.
A bicicleta que eu escolhi tem três anos. Não sei por quais países ela já andou, mas tenho a sensação de que foram muitos. Ela não vem nova como a outra, intocada, cinza sexy, reluzente. Eu, também, já não sou como aquela outra de mim, que subia pela primeira vez na bike prata como quem descobre que pode ser ciclista e viajante.
Em setembro de 2015, eu e minha bicicleta caminhoneira verde já começamos gastas. Cheias de anos em países e estradas. A manutenção é boa, mas se você olhar direitinho nas juntas, dá pra ver que a gente contém quilômetros.

* * *

Aqui na Alemanha, me dou conta que o outono chegou porque no fim da tarde preciso colocar o gorro pra voltar pra casa. Sentado do meu lado na cama, o Marvin vai desenhando o nosso caminho: amanhã levamos as bicicletas de carro pra Berlim, e de lá a gente sobe pedalando na direção da costa, fronteira com a Dinamarca, depois pra Leipzig, pra Dresden, de volta pra Marburg e por fim pra Frankfurt.
Quem diria.
Que de Uma eu seria Dois na estrada, procurando com ele uma cidade pra gente morar . Que um dia eu teria que aprender alemão, esta língua terrível e marciana. Que sem perder a lucidez eu aceitaria pedalar no norte da Alemanha no outono, e não no verão. Que esta minha nova viagem de bicicleta, mais curtinha e improvisada, seria pra criar raízes, e não para abrir asas e destruir projetos de estabilidade em todas as direções. Que eu estaria terminando o livro sobre aquela viagem de bicicleta, a outra, na estrada, lado a lado com o amigo que virou namorado, e que eu conheci lá atrás, quando pedalava sozinha na Andaluzia.
Eu sou outra e minha bicicleta agora é verde. O cabelo do Marvin cresceu, e a barba também. Mas a bicicleta dele ainda é aquela de dois anos atrás. Grande, pesada, robusta, barata, grosseira, artesanal.
Azul.
Alemã.


* * *
[ENGLISH]

I bought a bike today. My new two-wheel friend comes to replace the old one - that which once crossed through and with me three months, five thousand kilometers across France and Spain. Two years ago we were finishing our journey and taking the plane back to Switzerland. I half survived, but the bike was robbed in front of the library a couple of months later, in Geneva.
No one could tell by then.
My new bicycle is much cheaper than the older one. It is huge, heavy, tough, cheap, German, rough, handmade. I got it from an old man that speaks a language I can't understand. His job consists of taking people into bike tours around Thailand, and he puts the bicycles together himself. Each one of them has the same components, every frame is painted with the same fluorescent green and carries the same sticker from that same company. Velociped. When the summer is over, the bike touring season comes to an end. He opens the doors, outs the old bikes on sale and start to prepare new ones for the coming summer.
The bike I chose is three years-old. I know nothing about the countries where she has been too, but I sense she's quite an experienced one. She does not come to me like my previous partner - brand new, untouched, light gray, shiny-sexy. Me neither. I'm not like that old Mariana that rode a silver bike for the first time with the glow of someone who is starting to discover herself as a cyclist and a traveler.
In September, 2015, my bicycle and me have a second-hand beginning. Full of countries and roads, we are. Yes, we were well maintained thus we're in good shape. But if you look a little closer, then you'll notice our inside is just too full of kilometers.

* * *

Walking the streets of Germany, I realize autumn has arrived because by the late afternoon I'm going crazy without a hat and gloves. Seating by my side on the bed, Marvin draws our map in the air. Tomorrow we take our bikes to Berlin by car, and from Berlin we cycle up towards the coast, close to the border with Denmark, and then Leipzig, Dresden, back to Marburg, Frankfurt.
I couldn't tell by then.
That from One I would one day hit the road as Two, looking for cities where we want to live together. That one day I would really have to learn German - this terrible language that seems to have been created in Mars. That I'd be crazy enough to say yes to bike touring in the freezing German autumn. That this new bike tour of mine, short and improvised, would come into place as a way to lay roots, not as the spreading of wings wide, for the other one meant the destruction of every further possible illusion of stability. That I would be finishing the book of the past bike tour on the road, side by side with the friend that became boyfriend. The same one I met back then, two years ago when I cycled by myself in Andaluzia.
I'm a different self and my bike now is green. Marvin's hair has grown, and so did his beard. But his bicycle is still the same he had two years ago. Huge, heavy, tough, cheap, rough, handmade.
Blue.
German.



sábado, 21 de setembro de 2013

#53. Diários de bicicleta: More stars than there are in heaven

We'll walk hand in hand
Never as we planned
And even those we never knew
Fast they disappear from view
Fading world without a price
Right before our very eyes
Melts before our very eyes
Dies before our very eyes
[Yo La Tengo, "More stars than there are in heaven"]
 
E entao as rodinhas da minha bicicleta tocam o solo da Andaluzia. Em cima delas vai o meu corpo, e juntas chegamos com os sonhos de alguém que espera. Com as vontades de alguém que deixou o tempo passar em balneários farofeiros para só entao cruzar na direçao de um sul que a 40 graus era impedalável no mês de agosto.  Com as expectativas de quem ouviu tantas vezes nesta viagem que "los andaluces son la mejor gente que hay en España".
E com o medo original que reside em todas as expectativas inevitáveis: a de que nao resistam à experiência. Que afinal de contas é o que normalmente acontece com elas.

 ***

O meu mapa Michelin de papel me mostra que estou numa regiao enorme, e que entre as grandes cidades há pueblitos perdidos no meio de um calor total, mesmo no mês de setembro. Sentada no hostel em Almeria, pego meu marca-texto para desenhar minha rota, juntando os pontinhos de cada um dos meus destinos finais. Minha constelaçao é um polígono aberto, e minhas estrelas sao Almería, Parque Natural de Cabo de Gata, depois para o norte tem Granada, Córdoba, Sevilha, e de aí me vou de trem até Madrid para pegar o eternamente cancelado vôo pra Genebra.
Um mês depois, sentada no computador enquanto passo minha última noite na Andaluzia, me dou conta que meu projeto original ficou só mesmo nas linhas azul fosforescente que eu desenhei no meu mapa de papel. Nao fiz nem metade da viagem pela Andaluzia. Away from it, nesse setembro meu GPS de pulso passou a maior parte do tempo perdido nas profundezas dos meus alfojes, e em algum lugar entre aqui e lá eu esqueci completamente de lembrar os quilômetros diários que até entao eu cuidadosamente registrava no meu caderninho. Minha bicicleta conheceu a paz silenciosa dos estacionamentos enquanto eu experimentava o mundo da biketrip sem a bike e nem a trip, para entender finalmente a obviedade de que minha aventura nunca foi sobre nenhuma das duas. Quando pedalo, faço no máximo 50 quilômetros, e dos mais vagabundos, vendo o desfile do mundo no sonho das coisas que passam. Nesses mês eu fumo, bebo cerveja e vinho, caminho a pé com minhas havaianas européias vagabundas, como nos parques e nos bancos das praças, esqueço os principios nutricionais e o bla bla das digestoes todas dessa vida enquanto meu canivete vai cortando o pao com queijo de cada dia e eu vou assistindo sem pressa meu corpo que derrete devagarzinho, impossível de caber nas roupas de três meses atrás.
Na Cabo de Gata que nao é senao um parque com praias e montanhas em pleno deserto, eu tomo banho na água salgada da metáfora das três paisagens que representaram minha viagem. Em Granada, quando desisto de encontrar um parceiro de bicicleta, por acaso acabo sentada na mesa de um café em frente de um menino que tem os olhos do silêncio. Eu digo sim, ele diz sim também. No dia seguinte, lado a lado, nossas bikes vao buscando o caminho da Sierra Nevada.

Com o Marvin eu subo e desço pedalando as montanhas na chuva, e juntos passamos duas semanas meditando nos jardins das Alpujarras, comendo figo e tomate das árvores, acampando sob os céus mais estrelados que eu já vi na minha vida. Um dia eu acordo e é hora de ir embora. Sinto que tudo que respira em mim é amor, e meu amigo entende e sei que sente o mesmo. Com a paz de quem confia de que o que há no final está de acordo com o Sagrado Mistério de Tudo, eu abaixo minha cabeça enquanto o Marvin vai raspando meu cabelo devagarzinho, dizendo que meus cachinhos que agora caem no chao sao estranhos porque crescem em todas as direçoes.




- I look weird now, Marvin.
- You're still Mariana. 





quarta-feira, 28 de agosto de 2013

#52. Diários de bicicleta: kitsch me, babe

Valência-Xeraco-Les Rotes-Platjas del Pi-Santa Pola-Cartagena
330km para chegar no mundo de Gabriel 

Nada de mau pode acontecer comigo se eu estou perto do mar.
Nem o vento contra, nem os edifícios de mau gosto que enfeiaram essa parte da costa mediterrânea da Espanha com a bolha econômica da construçao civil, nem o calor de 35 graus pegajosos que me transforma num chafariz suador ambulante. 
Descendo de Valência em direçao ao sul da Espanha pela linha da costa, eu presto atençao é no mar transparente, no ventinho úmido que me lembra a Bahia, no mundo dos seres humanos que saem com sua farofa no isopor pra curtir a praia no verao. Digo definitivamente adeus à fairy tale dos hipsters gatinhos de Barcelona e da Costa Brava. Minha pequena Blanca e Cálida costas espanholas, minha Porto Seguro misturada com Cancún; minha maravilhosa terra de balneários para farofeiros alemaes e britânicos que usam sandálias com meias; meu amado mundo de parquinhos de diversao de plástico enfiados no meio do mar: eu te aceito do jeito que você é; eu te recebo na sua cafonice com meus braços bem abertos.

***

Algumas coisas o deserto tinha que me ensinar. Mas mais que me ensinar, ele me deu fome de ver gente, como se encontrar com outros seres da mesma espécie fosse uma sorte de necessidade fisiológica. E aqui nesta parte da costa espanhola nao pode existir mais gente. E nao pode existir gente mais cafona. O pessoal do cabelinho de gel e estilo jogador de futebol. As gatas de shortinho e sandaliona alta meio travecs. A turma alemao-de-balneário. Descendo Valência em direçao a Alicante, e depois até Cartagena, é aqui que eles vivem em agosto, e sua capital simbólica nao poderia ser outra senao Benidorm, uma cidade tao asquerosa quanto Camboriú e onde o mar nao passa de um enfeite na paisagem shopping center de prédios, ruas largas e lojas de souvernirs.

Mesmo assim eu digo sim. Decido que quero exercitar todas as formas que eu conseguir de dizer SIM, bem alto, pra tudo quanto é coisa. E começo mandando toneladas de mensagens pelo Warm Showers, que é o couch surfing dos ciclistas. "Sou ciclista pedalando a Espanha há dois meses e meio - quer me receber aí no sofá?"  Eu, que sempre gostei mais de cachorro do que de gente, eu agora estou facilíma pra qualquer um.

Assim é que tenho as experiências mais interessantes, começando por Valência, onde sou recebida pelo Carlos, um colombiano good vibe que faz um doutorado por lá e que me leva pra um city tour completo em bici. Like-minded, ele me dá as melhores boas-vindas ao meu propósito de voltar à terra das gentes. E logo vou baixando pra encontrar uns kyte surfers lindos e barbudos que me pegam pela mao e me levam para uma - acreditem se quiserem! - praia selvagem no meio da prediarada. E ali passo uma tarde inteira, de topless e com a bicicleta estacionada na areia, assistindo os kytes como se fossem pipas no céu. Já acho que estou abusando do Universo quando, dois dias depois, paro numa praia maravilhosa de pedrinhas ao lado de Benidorm e, bici de novo na beira do mar, vejo um casal acenando com uma latinha de coca-cola debaixo do guarda-sol. Eles sao valencianos e viajam por aí, meio hippie, casal de 50 anos sem filhos e com cachorros - "hoje você nao vai a lugar nenhum; hoje você dorme numa caminha gostosa no nosso trailer e a gente vai cozinhar pra você!". Enfio a bike no carro deles e aí estamos os três, comendo uma janta maravilhosa enquanto eu brinco com a cachorrinha yorkshire. Assistimos um filme dublado na tv, falamos bobagem como se nos conhecêssemos de toda a vida, e meu coraçao está apertado na hora de ir embora. 
Meu Deus do céu, cada vez mais eu amo a Espanha.
Em dois dias chego finalmente a Cartagena. A cidade é esquisita, e minha impressao é que há uma certa urgência sexual no ar. Nunca me senti mais observada, e é como se cada pessoa estivesse comendo minha perna e minha bunda com os olhos. Descubro que a pensao que eu reservei pela internet é na verdade um prostíbulo, e o quartinho onde minha bici fica guardada tem um cachorro fedorento dormindo. Na sala do lado, uma moça faz as unhas com vestidinho decotado.
À la Gabriel Garcia Marquez, acho tudo engraçado e me despeço mentalmente desse lugar que, à sua maneira esquisita, é a apoteose da minha volta à humanidade. Hoje à tarde começa outro mundo; hoje â tarde vou pro lugar com que eu sempre sonhei, né? Andaluzia querida, que é que você vai me ensinar?




*nesse ponto já tenho muitas fotos, mas tem sido tao difícil fazer upload nestes internet cafés... Juro que em um mês farei update de todos os posts com imagens das coisas e pessoas que estou encontrando por aí

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

#51. Os diários de bicicleta: porque eu odeio os desertos de dentro e de fora

Zaragoza-Híjar-Castellote-Martín del Río-Teruel-Albarracín
8 dias, 300 inesquecíveis quilômetros no meio do mais puro-lugar nenhum

Deus criou a perfeiçao dos dois meses da minha viagem de bicicleta, como se fosse uma sinfonia, uma coisa perfeita, algo que, tivesse eu previsto como ideal, seria insuportavelmente chata - a realidade me saiu duzentas vezes melhor. Pois vejam - saí da França onde eu vivia, acompanhada de uma companheira e aprendiz de cicloturismo como eu, gentilmente deixando o meu mundo na direçao do sul, com carinho e amor. Depois do teste drive com a Carol, entrei na Espanha e respirei aliviada: feels like home; já estou apaixonada por esse país no primeiro dia. Desci e alcancei uma sorte de cura espiritual pra dois anos da Suíça-dos-coraçoes-gelados entrando na Espanha e chegando a Santiago de Compostela. No caminho conheço minha guru de cicloturismo, minha linda Judi, e com ela pedalo até Portugal. Quando chego a Barcelona no horroroso Polishop-voador que é a Ryanair, recebo o amor da Ju e do Michel e pedalo sozinha esta coisa livre, maravilhosa, diversa, altamente ciclística e exuberante que se chama Catalunha. Nunca fui mais feliz entre montanhas, mares, ciclistas, vulcoes cheios de vegetaçao. Dali pego um trem pra Zaragoza, sem dúvidas minha cidade preferida na Espanha, conheço a comunidade ciclística ativista na Ciclería Social Club e marcho pros Pireneus, passando três dias nas montanhas mais bonitas que eu já vi na vida (e olha que eu morei na Suíça, né?).
Tudo até que, voltando a Zaragoza, eu decido pedalar em direçao ao sul, fazendo meu caminho até esta cidadezinha famosa chamada Albarracín, a uns 250km - dali o plano é descer em direçao à Valência, depois baixando pela costa e chegando à Andaluzia.
O que eu encontrei na minha descida até Albarracín, meus amigos, foi o deserto. Nem sabia que tinha deserto na Espanha - vai dizer que você sabia? Pois bem: deserto de Mosnegros, it is.
E agora eu entendo que existem coisas que alguém pode aprender amar, como eu aprendi a amar as montanhas.
Do deserto eu quero distância até o fim dos meus dias. O deserto pra mim, apesar dos meus esforços, nao passa de um grande, gordo, asqueroso e potente  mind fucker.

***
Quando foi a última vez que você ficou sozinho?
Você lembra de algum dia em que nao viu e nao falou com NINGUÉM stricto sensu?

Saio de Zaragoza na maior tranquilidade, uma da tarde, e às três faz 40 graus. A estrada é uma reta, e dos dois lados eu vou vendo nonstop essas montanhas, e tudo é pedra, um tom interminável de marrom e dourado. Nenhuma plantaçao, só montanhas baixinhas de pedras brancas, terra e capim queimado. Passa um carro a cada vinte minutos, quando muito, e quando olho pra frente o asfalto vai fazendo aquelas ondas de miragem de deserto. Eu pedalo, pedalo, e a terra de ninguém nao termina nunca. O horizonte é eterno, nao existe ponto de chegada. Os pequenos pueblitos estao a cada 30km e eu começo a ter medo. De tudo, basicamente, porque a água está acabando, porque a única coisa que eu encontro no asfalto sao essas dezenas de passarinhos mortos e de cobras douradas que atravessam rapidinhas o meu caminho.
Nunca imaginei que 50km pareceriam tao longos. Uma semana, e todos os lugares onde eu chego sao horrorosos, carissimos, nada pra comer. É tao seco que minha lente de contato vive seca. Eu paro constantemente, faço uns exercícios de yoga, mas sinto como se estivesse sufocando. Nao consigo respirar. Nao consigo dormir. Enfiada numas estradas secundarias onde nao existe ninguem, escrevo pros meus amigos bombeiros canários informando onde estou - y se por la noche me llamas y no contesto, llama a los bomberos aragoneses para que vengan por mi, porfa. Principalmente o medo de morrer, a solidao absoluta, a desconexao total. Um monte de montanhas difíceis e aquele nada absoluto e ubíquo, uma eterna vontade de vomitar, uma eterna vontade de gritar.
Chego a Albarracin, essa cidade que todo mundo ama e que o Lonely Planet me diz que é uma das mais lindas da Espanha, e eu nao consigo caminhar. Estou exausta. Passo dois dias deitada na minha barraca, só saio pra colocar minha perna fodida no rio. E quando, depois de dois dias, tomo meu caminho pra Valência, oq ue acontece é assim: depois de 60km eu paro na beira da estrada, sento e começo a chorar.
I´ve had enough.
Nao sou feita pra essa solidao.
Nao sou obrigada a ficar nesta merda.
Odeio o deserto e ponto. Nao adianta.
Saio correndo pra estacao de trem como se fosse uma fugitiva, peço uma passagem pro primeiro trem pra Zaragoza. Entro no trem e imediatamente consigo respirar, impressionante. Chego a Zaragora, vou logo à Cicleria, e ja me convidam pra um pedal às 21:30 da noite. Só meninas, 30km, pra curtir o primeiro dia de lua cheia e tomar uma cerveja. Somos 20 mulheres e uns 5 caras, estou feliz, adoro este lugar.
Nao se pode aprender a amar tudo. E eu aprendi agora que existem coisas que a gente precisa odiar. com toda a força da sobrevivencia.
O deserto agora é minha metáfora pessoal.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

#50. Os diários de bicicleta: dicas de cicloturismo, parte 1

[este post será dividido em dois ou três, porque as dicas são muitas e o texto é muito longo!]

Recebo um montão de mensagens de amigos que pedem toda sorte de dicas de cicloturismo.
Perguntas sobre o caminho de Santiago são as mais populares, mas também tem muita gente querendo saber qual foi a minha rota, como comer na viagem, que coisas levar, qual tipo de bicicleta aguenta esse tipo de viagem, se é preciso ser fit pra viajar de bike, onde dormir, como se planifica o caminho, em quais países dá pra pedalar...
Como a viagem ainda não acabou, e como toma tempo demais nesse momento da minha vida de sem-computador pra descrever bonitinho, step-by-step os lugares por onde eu passei, então vou postar o roteiro da viagem - com descrição das estradas que eu tomei, como chegar e como partir - quando terminar os próximos quilômetros que me esperam. Dividir é a minha forma de agradecer a todos os ciclistas que pararam, riscaram meu mapinha e me indicaram os melhores lugares e estradas para pedalar.
O caminho de Santiago é uma etapa à parte, e também os detalhes de como eu fiz a viagem eu vou postar mais pra frente (mas se você quiser pedalar por ele agora, entre aqui no www.bicigrino.com, que você encontra tudo que precisa pra fazer o Caminho!).

As dicas que vou dar aqui são na verdade o jeito que eu encontrei pra fazer as coisas, e podem ser resumidas assim:
é mais fácil do que parece.
tire férias e vá pedalar.


***

A bicicleta

Depende do que você quer.
Se você quer um veículo 4X4 que te leve pra todo lado, vá de mountain bike (mas você vai ser bem mais lento no asfalto).
Se você gosta de pedalar smooth, vá com uma bike híbrida - o nome chique para genérica -, dessas que parecem um pouco com mountain, mas não têm suspensão e têm a roda mais fina. A minha é assim (mas você ficará limitado em trechos sem pavimento).
Se você tem grana pra investir, compre uma bicicleta de cicloturismo, que é super robusta e aguenta muito peso (mas eu realmente não gosto muito, porque são muito pesadas e cansam pra subir escada de hostel!).
Nunca vá com essas bicicletas de cidade, tipo dobrável, ou sem marcha, ou com poucas marchas.
Vá com a melhor bike que você puder. Porque se alguma coisa estiver minimamente desconfortável, compaheir@, eu juro: esta coisa ficará absolutamente insuportável no seu quinto dia de viagem, quando você estiver passando 5 horas diárias sentadinho e embaixo do calor ou da chuva.
Revise sua bike antes de sair de viagem.
Cuide de sua querida bundinha e adquira um assento confortável, mesmo que ele seja um pouco caro.
Não esqueça: a melhor bici é aquela que tem o quadro que ajusta ao seu corpo. O resto, todas as outras peças são cambiáveis; o quadro não. O quadro, meus amigos, é o coração da bicicleta.


*Essa é a minha companheira: Trek 7.2

Levar ou alugar bicicleta?

Se você vai pra algum lugar longe, e sem carro pra levar sua bici, essa é uma pergunta crucial.
Olha, eu sempre levo a minha porque as bicis pra alugar que tenho visto até agora são uma porcaria. E seguramente bicis boas de aluguel devem custar uma fortuna. E quando eu digo fortuna, eu digo Fortuna, assim mesmo, com um F bem grande no começo.
No avião: isso significa que eu encaro a bucha de desmontar minha bicicleta, colocar coisinhas pra protegê-la de choques, buscar pedaços de papelão e montar uma caixa gigante, ralar pra encontrar um táxi que leve meu bebê e pagar uma fortuna pra chegar com ela até aeroportos. Na verdade é divertido; nem é tão chato assim. As companhias aéreas geralmente transportam sua bici, mas a política para isso varia em cada uma delas. Cheque antes. Em alguns aeroportos do mundo há mesmo empresas que embalam a bike pra você!
No trem: na Europa há trens que levam a bici sem desmontar. Na Suíça, por exemplo, é facílimo; na França é meio chato; na Espanha é um perrengue. Mas sempre tem como levar; trens são sempre a melhor opção pra transportar bikes. É só uma questão de checar com a companhia de trem do país que você escolher como é que funciona por ali.
Ônibus: alguns te obrigam a desmontar, outras companhias levam a bici inteira. Mesma coisa - checar com as companhias.
Não esqueça: desmontar a bike é sempre a pior opção, porque é chato e toma um tempão.
Se você não sabe desmontar, leve a bike no seu mecânico, fique assistindo ele fazer, faça mil perguntas e aprenda a montá-la de novo. Esta será sua primeira e melhor aula de mecânica.

Alforges


Ciclistas não viajam de mochila - por causa do equilíbrio do corpo e do conforto, os alforges são as mochilas dos ciclistas.

A bici é barata comparada com o equipamento que você vai precisar pra poder fazer uma viagem, mas se o equipamento for bom ele vai durar pra sempre. O custo da sua viagem de cicloturista tende a diminuir drasticamente no longo prazo..
Instale um bagageiro na bike e ali pendure seus alforges. Eles têm que ser impermeáveis, e as melhores marcas que rolam são Vaude ou Ortlieb. O meu par de alfoges custou 150 euros, se você quiser saber mais ou menos a média de preços.
No guidão, instale uma bolsinha removível e impermeável especial pra bicicleta. Ali você vai colocar sua carteira, documentos, protetor solar, óculos de sol e todas as outras coisas de uso frequente. É maravilhoso, é essencial!
*Minha bike na Costa Brava espanhola - detalhe é a bolsinha que vai na frente

Tem que ser ciclista pra começar? + Pra não se machucar

Não precisa ser atleta pra começar.
Já vi bastante gente sedentária que ficou fit pedalando em cicloturismo. Vixe... muita gente mesmo.
Mas se você não está acostumado a pedalar com carga - quase ninguém está, né? - vá bem devagarinho nos primeiros 10 ou 15 dias.  Pense que bicicleta de viagem, com carga, é um outro veículo, meio que uma carroça. O centro de gravidade é diferente, o equilíbrio é diferente, subir encostas é diferente, descer é diferente.
Treine a humildade, faça poucos quilômetros por dia, alongue, aproveite pra parar e visitar os lugares bonitos do caminho, pra fazer um piquenique embaixo da árvore. Mesmo que você sinta que pode ir mais, não vá. Escute seu corpo. Chegue no fim de cada dia, entre no chuveiro/banheira e tome um banho da água mais gelada que você conseguir encontrar, mesmo que isso signifique um sofrimento louco e que os seus ossos doam mais que a vida. Isso vai desinflamar todo o seu corpo e vai ajudar na sua recuperação muscular.
Dá pra escrever uma história sobre as pessoas que eu vi machucadas no caminho, a maioria delas com tendinite no tornozelo ou com problema de joelho.  Na maioria das vezes a lesão vem do sobre-esforço, e geralmente a gente não se dá conta que está passando do limite. Eu mesma machuquei meu pobre joelhinho no meu primeiro mês...
Lembre: o pessoal que pedala 70km por dia na manha geralmente não se machuca. Esses normalmente são os cicloturistas experientes.
Então use o cicloturismo pra descobrir o seu corpo e pra cuidar dele.
Se você quer pedalar um montão por dia, a melhor coisa é pegar sua bike e sair pedalando por aí, livre e leve, sem alforges e sem compromissos.
Se o negócio é sair de cicloturismo, vá devagar, pedale menos, contemple mais. A recompensa no final será um corpo forte e sem lesões.

Comendo

Ciclista de longa distância é como diabo da Tasmânia ou - citando o Manu - o Cookie Monster.
Nada nesta vida dá mais fome. E quando eu digo fome, digo: comprar um pacote de macarrão, comê-lo inteiro na janta (=500 gramas), chegar no final da viagem de 2 meses e ter perdido cinco quilos e meio. Digo: comer cinco croissants, um café com leite e um suco de laranja no café da manhã. Digo: uma pizza inteira, uma salada e um sanduíche de meia baguette na hora do almoço, e mais uma coca-cola normal pra acompanhar.
Cada pessoa tem uma estratégia pra comer que nem monstro, ter sempre comida à mão e ainda por cima não acrescentar muito peso aos alforges. Vou explicar a fórmula que eu desenvolvi pra mim, e que foi a melhor que eu encontrei até agora.
Iogurte todo dia, porque meninas têm que cuidar muito do ph e evitar chatices como corrimento e outras doenças íntimas.
Sempre tenho comigo um saquinho de ameixa seca, que são fibra pura pro intestino, e que ainda por cima têm bastante açúcar.
Uma caixinha de 1 litro de suco de laranja sempre me acompanha no quadro da bike, do lado da garrafa de água. É açúcar puro, absorve rápido, tem bastante calorias e vitamina C.
Um pacote de cookies, porque se o açúcar baixa de repente eles sempre estão ali.
Duas bananas - uma antes, uma depois da viagem.
Quando sinto dor no estômago por alguma razão, como bastante maçã. Não sei qual a ciência disso, mas elas me ajudam muito. A mesma coisa com limão. Sempre carrego comigo um limão.
Um pacotinho de castanhas sempre salva a pátria da vontade de comer sal.
Na hora do almoço, tiro dos alforges um pãozinho, um queijo, tomate. Na janta sou mais cuidadosa e, no camping ou no hostel, encaro bastante abacate, salada escura (espinafre ou rúcula; o que tiver), a proteína disponível, macarrão.
Ser vegetariana é difícil. Quando encontro, me jogo em cima dos grãos de bico. Como nem sempre foi possível, flexibilizei e comecei a comer peixe e frutos do mar na viagem. É difícil, porque o corpo digere mal, mas foi a solução.
No mínimo 4, mas normalmente uns 5 litros de água por dia.
E no final de cada dia, a maravilhosa, a genial, a benvinda cerveja que salva a pátria.










domingo, 11 de agosto de 2013

#49. Diários de bicicleta: revisão dos 3.000km

In a nutshell

No comeco foi assim: minha amiga Carol e eu decidimos fazer uma viagem de 14 dias em bicicleta. Saímos da Bretanha no dia 14 de junho e pedalamos 1200km descendo a costa atlântica da França até a fronteira com a Espanha, no País Basco.
As férias acabaram, ela voltou. Eu tinha fechado meu apartamento em Paris e não conseguia responder à pergunta fundamental - "voltar pra onde?"- , porque acho que de um jeito ou de outro sempre me senti parte de lugar nenhum. Diálogo interno com meu corpo que então só estava se acostumando a passar o dia sentadinho na bike, eu decidi pedalar até Santiago de Compostela porque precisava de respostas. No começo, sozinha, mas no caminho pesquei alguns amigos espanhóis e conheci a Judi, minha nova companheira de bici. Cheguei a Santiago com o coraçao mais leve, sem muitas respostas, mas pelo menos com perguntas mais interessantes. Na calculadora somei mais 800km, tive uma história de amor daquelas bem lindas com um ciclista espanhol e descobri que eu gosto mesmo é de pedalar as montanhas.
Depois de Santiago deu um vazio, mas não deu nenhuma vontade de voltar. Peguei a Judi e fomos descendo pela costa em direção a Portugal pra descobrir que os nossos colonizadores são motoristas pitbulls. No caminho passamos por um parque nacional espanhol, fizemos um hikingzinho e acampamos, adicionamos mais uns 300km ao nosso odômetro e pegamos um bronze maravilhoso pelas praias que a gente encontrou.  Era verão e fazia sol por dentro e por fora.
Mas eu queria ficar na Espanha e sair do Portugal infernento das estradas. Então roubei papelão no lixo, montei uma caixa e peguei um horroroso vôo da Ryanair pra Barcelona. O ticket da bicicleta custou mais do que o meu. Cheguei sem saber pra onde ir, mas Barcelona é maravilhosa, né?, e quando eu entrei na primeira loja de bicicleta com um mapa na mão e perguntei pro menino do conserto "pra onde eu vou?", ele apontou vulcões, praias transparentes, cidades medievais e mais uma tonelada de montanhas, e então alguma coisa dentro de mim começou a rir bem alto de novo. Santiago is over, mas o mundo, o mundo é um lugar localizado no beyond e está cheio das ciclovias que você quiser, te levando pra onde você escolher. Este é o Caminho.

Foi bem assim que descobri que a Catalunha, vista por dentro, é um coração em formato de bicicleta.

Na dureza de serras infinitas e paisagens agrestes do Dali, fechei meus 3.000km de bike. Pra celebrar, tomei um trem pra Zaragoza, deixei a bicicleta no hostel e peguei um buzão pros Pireneus. Porque os Pireneus - olha, os Pireneus sempre foram o meu sonho. E eu caminhei 60km neles em três dias, saindo todos os dias da minha barraquinha azul de trinta euros que viveu tormentas inenarráveis, chuvas de granizo e ventanias que me assombraram e não me deixaram dormir.

O escocês que é campeão de corrida no leste da Suíça, e que caminha Alpes e Himalaias semanalmente, me acompanhou e descreveu nas caminhadas: I have never seen a woman as strong as you in the mountains.
Obrigada, Ranald.
Subi no carrinho dele e peguei uma carona até Genebra, rezando pela segurança da minha bicicleta em Zaragoza. Subi na balança e pluft: 5.5kg a menos, as pernicas duras  e uns músculos na bunda que eu nem sabia que existiam.
Parece que eu estive 3 anos fora.
Em quatro dias eu volto pra Espanha pra pedalar mais um mês. Ou dois, até o outono chegar.
Porque ainda     ainda eu não descobri pra onde eu posso voltar.
Sadhu.

 *Vista na chegada de bicicleta à praia de Montjoi, na Catalunha


 *Hiking os Pireneus


*Minha barraquinha valente
 
*Judi e a terrível confecção de caixas caseiras para transportar a bicicleta no vôo da Ryanair

*o filme que é uma espécie de identidade

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

#48. Os diários de bicicleta: Catalunha. Ponto.

26 julho - 02 de agosto
Barcelona-Parc Natural Montseny-Girona-Olot-Figueiras-Roses/Cap Creos- Cap de Begur - Tossa del Mar-Barcelona
350km de montanhas, praias mediterrâneas e vulcões, bem dentro do coracão do ciclismo

A Catalunha pra mim sempre foi Barcelona. Ponto.
E I never really got it. Porque, pra ser bem sincera, eu sempre achei Barcelona um pouco overrated.
Mas quando eu saí de bicicleta em direcão ao interior... Bueno. O mundo e seus tapas na minha cara.

Porque a Catalunha é um lugar assim: com praias transparentes de água quente e selvagens, montanhas maravilhosas que se espalham do interior até a costa, de zonas vulcânicas onde o chão meio que dissolve enquanto você faz o seu hiking sozinha em trilhas estreitinhas mas delicadamente sinalizadas, de cidades medievais cravadas literalmente sobre umas paredes de pedra na beira de precipícios.
E tudo isso, tudo isso no coracão do ciclismo.  Porque aqui é um dos hot spots do ciclismo mundial, um desses lugares cheios de estradas secundárias, com montanhas e retas, e que nunca fica tão frio que torne o inverno inciclável.
Vou comprar uma banana e o quitandeiro é ciclista, abre meu mapa e indica a melhor rota pra eu seguir. Um dia antes o cara do restaurante do camping, já meio pancudinho, anunciava seus 20 anos em cima de uma bike e me mostrava, também no meu querido e amassado mapa, como pegar a estrada que é, definitivamente, a mais linda em que eu já pedalei na vida, saindo de Arbúcies até Girona entre um cânion, à esquerda, e uma parede de pedra, à direita.

Acordar, pedalar 10 minutos até a praia, tomar sol por duas horas, e depois subir uma montanha até a zona vulcânica de Olot? E ainda cruzar o castelo que o Dali construiu pra Gala no meio do caminho?
Pela exuberância de Aleph, de microcosmo de tudo que existe de mais bonito nessa vida, com gente brava mas verdadeira, eu declaro meu amor pela Catalunha.
Na minha completa repulsa a compromissos de toda ordem, encontro um pedacinho meu que concede do lado de cá: sim, eu poderia viver aqui.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

#47. Diarios de biciclieta: cool waves wash over me

25 de julho, 70km, SantCeloni-Arbucies
26 de julho, 50km, Arbucies-Girona 


Que caminho tomar ate a Suica?
A decisao nao e tao dificil assim: eu gosto das montanhas, da praia, da Espanha e dos ciclistas espanhois.
Onde eles estao, meu Jesus?
Acordo de ressaca no dia 25, e as 11 da manha estou pegando um trem que me leva na direcao dos Pireneus.

***

Existe uma rota de bicicleta famosa aqui na Espanha que se chama Transpirenaica. Ela comeca na costa Brava, perto de Barcelona, e termina em Hendaye, Pais Basco, atravessando o norte do pais. Toda a regiao e parque de diversao dos ciclistas fortes, a galera que tem as pernas magrelas de montanhista. Os Pireneus sao uma especie de mistica do ciclismo mundial - "ah, eu fiz os Pireneus...": essa e uma daquelas coisas que voce pode dizer naqueles momentos de querer ser gatinho na mesa de ciclistas.
Eu nao tenho a pretensao de pedalar extensivamente nos Pireneus. Guardo o projeto dentro de mim: o objetivo do ano que vem e fazer a Transpirenaica toda e depois continuar ate Santiago pelo caminho do norte, porque afinal de contas eu ando pretensiosa. Esse ano o que eu quero e chegar na bordinha, nos pre-Pireneus, na regiao vulcanica que esta em torno de Olot. Para chegar ali eu tenho que cruzar umas montanhinhas, mas quando as pernocas gritarem o socorro eu vou pra pra praia de novo, subindo a Costa Brava e entrando na Riviera Francesa, depois rumo a Genebra.

***

Estou sozinha. Estou sozinha nas montanhas. Estou sozinha nas montanhas de um parque natural catalao onde nao ha ninguem. Estou sozinha nas montanhas do Parc Natural del Montseny, nao tem ninguem e eu comeco a ter tontura, nausea e taquicardia. E oficial: estou com mal de montanha, ne?
Vou pedalando e parando. Pedalando e parando. Pedalando e parando pra respirar.
Olho pra baixo e tenho vertigem, mas e tao lindo que nao consigo parar de olhar.
Tres horas e meia, vinte e cinco quilometros depois, estou no alto da Serra de Montseny. Nunca subi tao alto assim. Nunca pedalei tao dificil assim. Estou feliz de estar fazendo o caminho que eu inventei, e vou descendo ouvindo minha musica preferida dos ultimos tempos e, que sendo do Spiritualized, e ao mesmo tempo uma porrada na cara e uma oracao gospel style: 

baby when you gotta sleep, lay your head down low. Don't let the world lay heavy on your soul. 'Cause when you gotta sleep, you gotta sleep. Cool waves wash over me: cool water running free. Lay your sweet hand on me - 'cause I love you, love you

Chego no pueblo seguinte e estou tao cansada que nao consigo pedalar ate o camping. Nunca me aconteceu isso na vida.  Desco e agora estou carregando a bike montanha acima, quando uma van para pra falar comigo.  O senhor catalao: te ves tan cansada! Entra que te llevo!
Dois quilometros depois estou na barraca. Ah, Espanha, cada dia eu te amo mais.

***

O dia seguinte e assim: uma estrada que baixa. 40km no que e provavelmente o lugar mais bonito onde ja pedalei: so ciclistas, e de um lado, a montanha; de outro, um canion esculpido pelas lavas de um vulcao, e onde hoje esta um rio.
Pedalar na encosta da montanha sentindo o cheiro e o barulho da agua? So fazendo pra saber.
Estou feliz, tao feliz por dentro.
Esse lugar foi o lugar que eu escolhi.
Esse lugar sou um pouco o que existe dentro de mim - a montanha, o ciclismo, a aversao ao turismo massivo.
Declaro meu amor, hoje, as montanhas da Catalunha, o lugar mais bonito onde estive nesta viagem.

#46. Diarios de bicicleta: all is full of love


21-23 de julho em Porto
23-24 de julho em Barcelona


:love

Eu e Judi estamos em Porto esperando pelo dia 23, que e quando nossos voos nos levam embora. Estou ansiosa, nao gosto de estar muito tempo no mesmo lugar. Minha bicicleta esta consertando, estamos a pe, e na tarde do dia 22 pegamos o busao ate os outskirts da cidade pra pedir caixas de papelao a grandes lojas de departamentos. Nope - IKEA e Decathlon dao o desole, aqui as pessoas reciclam as caixas, tchau, boa sorte. No pasa nada, tudo tem que estar empacotado dentro de seis horas de um jeito ou de outro, entao aqui estamos nos, desfilando no lixo do IKEA e roubando uns papeloes esquecidos. (cicloturismo nao e glamour). Uma fita autocolante, uma noite sem dormir, a bike inteira desmontada, amarrada, esvaziada, desgracada em sua nudez de pedacos espalhados no saguao principal do hostel enquanto todos os hospedes estao dormindo. Assim nasce a caixa tosquissima que esta abrindo por todos os lados e que com a qual eu deixo escada abaixo no hostel as 3 e meia da manha. O taxi pra me levar pro aeroporto esta esperando.
Ops... como nenhum taxi queria levar a bike, liguei pra esse so dizendo que teria uma caixinha em vez da mala. Ele esta bravo, mas vamos la, companheiro, abaixa o banco de tras, we can work it out. Foi. (e por isso que eu gosto tanto da Espanha ).Coloco a caixa no taxi, estou sem dormir e com fome mas estranhamente nao estou irritada. Life goes on, temos mesmo pouco controle sobre as coisas, e se uma coisa eu aprendi nessa viagem foi justamente isso - que tudo pode acontecer a qualquer momento.
Abraco a Judi, minha companheira de viagem nos ultimos 10 dias. Nao consigo encontrar nada pra dizer. Olho pra ela e acho que ela sabe disso tambem. Nada, nada pode dizer o que ja foi vivido; nao existe nenhum lugar textual que exprima o que so tem lugar no que ja foi e nao existe mais - como a construcao conjunta desta caixa horrorosa, por exemplo.
Judi e minha companheira e minha cumplice. Minhas reverencias, babe; so nos duas sabemos o que vivemos juntas.

***

Chego em Barcelona pra ficar na casa da Ju e do Michel por duas noites. Sao 10:30 da manha, a Ju esta na yoga e estou esperando por ela na escada, dormindo abracada na minha caixa querida. Claro que estou fedorenta, virada, engraxada e suada no calor de 40 graus que faz nessa cidade. A Ju sacou tudo, me da um beijo, dois quilos de comida e ja enfia minhas roupas imundas na maquina de lavar. Nos dois dias que passo ali ela encara sorrindo uns programas bucha em lojas de bici. Vai no correio pra enviar peso extra comigo. Ouve minhas descobertas sobre bicicleta, mulheres, iogurte e o ph vaginal. Prepara comida vegetariana e topa passear por Barcelona comigo em bicicleta, porque, meus amigos, eu realmente nao topo esse negocio de city tour em metro nunca mais. De noite o Michel chega do trabalho, coloca um sonzao maravilhoso pra tocar bem alto e vai me mostrando as fotos dele e os livros de fotografia que ele tem na estante. Na vespera da minha partida chegam dois amigos pra passar uns dias em Barcelona, e os cinco bebemos, conversamos, ligamos de Skype pra outros amigos em comum que moram em Nova York, falamos de bicicleta - claro - e do terremoto em Fukushima.
Parece ate que eles sao todos cicloturistas tambem, porque entendem direitinho, sem eu ter que dizer nada,  que tudo que eu preciso e uma tonelada de comida sem carne, sensacao de casinha e amigos, roupa limpa, o sentimento de que existe um lugar no mundo pra onde eu sempre posso voltar. Penso e concluo: amizade e isto - uma casa onde a gente sempre tem um cantinho.
Namaste, Ju.

***

No meanwhile, claro, eu tambem me apaixonei por um ciclista.
E ele, que ja foi pra casa em alguma parte do mundo, liga todo dia de manha e de noite pra mandar as buenas vibras, me pergunta coisas da bici e faz declaracoes de amor ciclisticas - ta comendo bastante macarrao, meu amor? Ah, se furar o pneu eu pego um aviao na hora pra consertar pra voce, minha brasileira...

***
Assim e que eu, eu nao tenho casa, mas tenho uma tonelada de amor em volta de mim.
Entao passo no El Corte Ingles e compro dois mapas de escala boa. O primeiro, Barcelona e Arredores+Pireneus Orientais. O segundo, Costa Brava Espanhola.
Amanha saio pra estrada. Agora nao tem rota pre-definida, agora nao tem "destino final: Santiago".
Agora quem escolhe o caminho pra chegar na Suica sou eu.

.



domingo, 21 de julho de 2013

#45. Diários de bicicleta/The bike diaries: dance your dreams

And then take yourself out dancing, to a club where no one knows you, stand on the outside of the floor until the lights convince you more and more and the music shows you. Dance like no one’s watching because they’re probably not. And if they are, assume it is with best human intentions. The way bodies move genuinely to beats, is after all, gorgeous and affecting. Dance until you’re sweating. And beads of perspiration remind you of life’s best things, down your back, like a book of blessings. (Tanya Davis, "How to be alone")

Era um dos dias de neve na Suíça, e eu assistia no meu quarto o pequenininho How to be alone enrolada no meu cobertor xadrez
E tem essa hora em que a menina esquisita do vídeo começa a dançar sozinha, vestido preto e óculinhos, linda, uma espécie de Mariana do outro lado mundo.
Embaixo do cobertor, então, eu adiciono um item a mais à minha lista de pequenos sonhos cotidianos.
: um dia eu vou estar tão feliz, mas tão feliz, que vou me dar de presente um vôo livre na pista de dança de algum lugar desconhecido do planeta. e neste dia em que o mundo fora de mim estará invisível, neste dia eu quero dançar mais ou menos igual aquela menina, dancing my dreams, o dentro virado do avesso, colonizando todos os pontinhos do universo à minha volta com o meu império interior.

***

Então ontem saímos para a noite de Porto - eu, Judi, os amigos belgas. Um complexo de 4 ruas, dois milhões de bares e clubes com todos os tipos de músicas possíveis e imagináveis. Uma, duas, três cervejas. Uma, duas, três da manhã, e a gente entra num bar de hip hop.
Não quero sair daqui.
Mas são quatro da manhã, o bar fechou. Judi e o belga querem dar mais uma volta. Eu não, eu quero ficar sozinha.  Tchau. O belga está preocupado, "don't worry, I'm ok!", eu respondo sorrindo. A Judi é minha companheira linda e já entendeu que eu estou pedalando uma montanha em pensamento. Dobro a esquina e entro num club lotado.
São 4:15 da manhã e está tocando punk rock. Eu estou feliz. Home, sweet rockn'roll home.

Então eu danço. E rola um monte de old punk rock misturado com um pouco de indie moderninho. Quando começa Blondie eu tenho vontade de chorar nesse meu único vestido florido e havaianas que estou vestindo há um mês. Estou pulando da maneira mais ridícula no meio da pista, e nem sei quem está do meu lado. Só danço, danço, danço, e já tem um tempão que estou assim quando parece que todos os homens do mundo vêm pegar na minha cintura, falar sei lá o que no meu ouvido, me puxar pra dançar. Nunca fiz tanto sucesso como hoje, com esta roupa bizarra e essa total ausência de batonzinho.
Não, hoje não. E resisto até ao homem barbudo mais lindo do mundo, que de camisa xadrez vem falar uma coisa que não entendo no meu ouvido. Nope. Nem mesmo você, gatinho.

Percebo um cara mais velho que eu, uns 40 anos, dançando com os bracinhos quando começa a tocar I fought the law, e nos cumprimentamos com o olhar. Sim, entendi. Você também é do rockn'roll, né? E a gente passa dançando perto a noite inteira sem trocar uma palavra. Os meninos continuam me puxando, mas agora eu nem abro o olho pra falar que não. De vez em quando levanto a cabeça só pra encontrar o olhar do meu vizinho punk. E quando toca Sound and Vision a gente se abraça, "I love it, I love it", "I know!!!!! Low's my favorite too!!!!!!!"
Não sei nada desse cara. Só que ele adora o Bowie de verdade.
 
É a última música. A luz acende, e eu abro espaço até a porta entre aquele monte de meninos da pista que ainda está atrás de mim. Eu realmente devo ser a pessoa mais bizarra desta cidade. Esta é a única explicação que consigo encontrar pro meu sucesso inesperado.
Encontro Porto ensolarada do lado de fora. São oito e meia da manhã e eu paro pra tomar um café com leite sozinha na padaria, celebrando melhor noite de rockn'roll da minha vida.


 *How to be alone

* Bowinho do meu coração 

sábado, 20 de julho de 2013

#44. Diários de bicicleta: a perfeição da natureza

14-19 de julho/2013, 280km de Santiago de Compostela até Porto

Somos eu e Judi agora na estrada. Estamos pedalando uma das rotas de peregrinação a Santiago no sentido contrário. À medida que vamos descendo o Caminho Português em direção à fronteira encontramos peregrinos com mochilão indo ao lugar que a gente deixou. Vou baixando, baixando, e Santiago vai se dissolvendo. A memória do Caminho    essa pedrinha de açúcar eu jogo agora na água     spluft        desapareceu.  Sem querer essa viagem já faz parte de mim, se perdeu em algum lugar que é precisamente eu mesma. 

Começa agora uma espécie de mini-viagem depois da viagem. A sensação é esquisita, porque é frouxa:
- Eu e Judi não buscamos nenhum destino final de peregrinação.
- Não temos prazo pra chegar, não temos acomodação em nenhuma das cidades do percurso, não temos nenhum mapa.
- Somos duas mulheres na estrada.
- Temos uma barraca pra duas pessoas.
E qual é nosso objetivo?
Praia, sol, cerveja e coisas interessante de toda sorte. Em quantidades estratosféricas, se possível.

Vamos devagarzinho. Quando a Judi vai na frente, olho pra ela e depois de uns dois dias percebo impressionada que todas - e quero dizer isso mesmo, TODAS - as pessoas por quem ela passa param para assisti-la desfilar em bicicleta. É realmente um dominó de cabecinhas espanholas e portuguesas girando na direção da minha companheira de pedal.
A Judi não é só mulher, mas é mulher, e negra, e ciclista, num mundo dominado só, e exclusivamente, por meninos branquelos europeus. Me dou conta que estou pedalando há um mês e nunca encontrei nenhum ciclista negro. Mulher sozinha, só a Judi. E eu. E sabe o que? Temos a mesma bicicleta.
Não é à toa que as pessoas estão sempre gravitando em torno da gente.
Power to the people.
Sinto que somos as mulheres mais lindas e poderosas do planeta Terra.

Eu e Judi, o trem das mulheres segue lentamente, parando em praias e pegando ferrys para parques nacionais espanhóis. Além da alegria geral de estar nos lugares mais lindos do mundo, sou sortuda porque estou virando profissional da bicicleta. A Judi já está pedalando há sete meses - Brasil, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai e Espanha (!) - e me ensina tudo sobre cicloturismo. De alimentação pra mulheres a mecânica de bike, de dor de barriga na estrada a empacotar os alforges, até a difícil questão do ciclo menstrual e ciclismo... Estou tendo o melhor curso prático do mundo.
-" Thanks, Judi. Again!"
- "No worries! I'm happy that I'm putting a smarter cyclist on the road!".
Com a Judi estou sempre rodeada de mecânicos de bicicletas, ciclistas da comunidade ciclística, sempre informada de onde está rolando Massa Crítica, assistindo vídeos de pessoas que estão dando a volta ao mundo e que ela encontrou por aí...
E, Deus que me perdoe, esse é o esporte dos sonhos. Um monte de meninos legais, mochileiros e lindos.
É um batizado. De visitante, agora sou mais uma habitante do Maravilhoso Mundo de Cycleland. Sinto que sem querer encontrei um lugar no mundo.
Adoro estar perto de outra mulher como eu, com projetos parecidos com os meus, que adora ser mulher, e que adora desafiar as caretices sobre o que é esperado de nós mulheres.
Sou a pessoa mais feliz que existe porque entro no mundo do ciclismo através de uma mulher.
Namastê, Universo.

A natureza, a bicicleta e a Judi aliviam minha saudade do passado. Estou de volta ao presente, graças a Deus. E de recompensa, a inspiração: comprei minha passaginha. Dia 23 de julho chego em Barcelona, e daí continuo pedalando mais 25 dias até Genebra. Judi segue até Barcelona comigo, mas de lá nos separamos.
Por enquanto a gente continua aqui, em Porto, fazendo nada.
Claro, com dois belgas que, vendo a gente chegando cheias de graxa na cara, passam o dia perguntando e anotando nossas dicas sobre Santiago enquanto pedem mais uma garrafinha de cerveja pra gente.
Power to the people.



*Foto da Judi enquanto pegávamos o barco em direção às Ilhas Ciés, no Parque Nacional das Rias Baixas, Espanha


* Ilhas Ciés, no Parque Nacional das Rias Baixas, Espanha


* Nossa casa em Caminha, Portugal


* Glamour zero: esse é meu bronzeadinho ciclista-caminhoneiro-shortinho, enquanto deito na mesma toalha que vou usar pra tomar banho mais à noite. Mas a praia em Caminha estava linda.







sexta-feira, 19 de julho de 2013

#43. Diários de bicicleta/The bicycle diaries: Nuevos Caminos

(English version below)

Saw you at a party
You asked me to dance
Said music was great for dancing
I don't really dance much
But this time I did
And I was glad that I did this time

And the song said "Let's be happy"
I was happy
It never made me happy before
And the song said "Don't be lonely"
It makes me lonely
I hear it and I'm lonely more and more

Where I belong, where I belong (Yo La Tengo, "Last Days of Disco")


Percebo agora que o Caminho não é só chegar. É saber como partir.
Nada é pra mim mais difícil que isso.

Estive em Santiago por três dias inteiros. Um coração levinho. O tempo não existe. Aqui estou eu, nessa cidade linda, dormindo numa cama digna de novo, e todo dia eu saio escondida caminhando sozinha pra assistir os peregrinos que chegam da à catedral. Sento e assisto. Gosto de ver todo mundo feliz. Eu sei como é, eu sou dentro da sua alegria, você esteve e é dentro da minha.
Depois de 2 anos de inverno suíço, nesta viagem eu tive que reaprender de novo como encostar em gente. E nos meus últimos dias no Caminho de Santiago eu literalmente beijei todo mundo que apareceu pela frente, todos os ciclistas foram religiosamente abraçados e esmagados por mim, "eu te amo" pra geral nos albergues, lágrimas de amor para todos os bikers, e meu inglês, meu francês e meu espanhol macarrônicos nunca estiveram melhores. Não tenho mais medo de nada, e inflo com orgulho meu peito de pessoa bizarra, emocional e pegajosa. (Não existe no mundo nenhuma palavra que expresse minha gratidão eterna à Espanha por ter me curado do coração gelado que eu cultivei em Genebra). Não quero estar em nenhum outro lugar. Quero que tudo pare, e quero viver pra sempre aqui, dentro deste segundo que é o momento em que eu cheguei em Santiago.
Até que chega o dia em que meus amigos bombeiros das Canárias têm que ir pra casa.
Insuportável. Nem eu mesma me aguento hoje. Estou chata, triste, coração partido, me sentindo traída, com vontade de morrer, olhando o relógio a cada 15 minutos. Ligo assim que o avião deles chega em Tenerife, desesperada, simplesmente pra descobrir que escutar a voz dos dois me deixa mais deprimida.
Não consigo dormir. Não consigo ficar acordada. A cerveja me dá enjôo e vontade de chorar.
Porque foram esses meninos  que me enfiaram contra a vontade todos os dias nos rios mais gelados do mundo e fizeram meu joelho sarar. David pedalou montanha acima lado a lado comigo, falando das Canárias e da vida, e foi com ele que eu cheguei nos lugares mais altos do Caminho de Santiago. A gente comeu polvo à galega e bebeu vinho, eles me fizeram rir, me ensinaram a limpar a bicicleta de manhã, encararam hostel trash, e eles me viram na minha mais alta fedentina e engraxamento ciclístico sem nunca deixarem de me amar. Aliás: sempre falaram que eu e Judi éramos as ciclistas mais lindas do mundo.
Agora eles foram embora e eu não sei quando e se vou encontrá-los de novo. Não sei o que fazer. Não tem mais Santiago, estou perdida, abro o mapa-múndi e não consigo escolher o meu próximo destino ciclístico no planeta Terra.
Olho pra Judi, devo estar com aquela cara de cachorro abandonado na chuva, e pergunto se posso acompanhá-la até Porto. A ideia é matar tempo em 250km light e esperar a inspiração de nosso Senhor Jesus Cristo. Se ele ajudar, chegando em Porto eu já vou ter decidido e comprado uma passagem de avião.

Somos agora apenas eu e Judi on the road. Não sei como é pra ela, mas eu nunca me senti mais sozinha.


*Nós 4 em Cycleland, prontos pra sair e pegar as montanhas
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Saw you at a party
You asked me to dance
Said music was great for dancing
I don't really dance much
But this time I did
And I was glad that I did this time

And the song said "Let's be happy"
I was happy
It never made me happy before
And the song said "Don't be lonely"
It makes me lonely
I hear it and I'm lonely more and more

Where I belong, where I belong (Yo La Tengo, "Last Days of Disco")


I realize now that it is not only about heading all the way to Santiago. It is also about learning how to let it go.

We were in Santiago for three days, and in these three days my heart was nothing but joy. Timelesness. Here I am, sleeping in a proper bed, resting, and every single day I walk by myself to the cathedral to watch the pilgrims who are arriving. "I've been there", and I feel part of their happiness, I am inside their contentment, they are inside of mine. Music, friends and sun... After 2 years of cold, long winters, I had to learn again how to touch people, and in this camino I kissed literally everyone of the cyclists I met. I told everyone that I loved them, I hug, and kiss everybody again, and my English is perfect, I do speak French and Spanish, I stopped being afraid of staying close and being the crazy emotional person I am. (Thanks, Spain, you definetely fixed me!) I want nothing but that. I want to stop time      now          and live eternally inside this very one second when I first got my feet in that city.
But it came the day when our firefighter friends from the Canarian Islands had to leave back home.
I suddenly became hopeless. Jesus, what a miserable day. Broken-hearted. Betrayed. Time now is fucking slow and I call them as soon as I realize their plane landed in Tenerife. I regret right away: hearing their voices makes me even more depressed. Nothing can do with my grief.
These guys were the ones who forced me into the ice-cold rivers and helped me to fix my knee. David was riding by my side in the last two days of the camino, the two of us up the worst mountains, and he was the one who shared with me the pleasure of arriving up there. We ate octopus and drank wine, we laughed, we cleaned our bikes in the morning, we struggled with bad and good hostels in our way, they saw me eating like a dinosaur and wearing my worst stinky clothes, but they never ever stopped loving me. We used to split going downhill, but we always knew we would finally get together in the end of each road.
Now they are gone and I don't know when and if I will see them again. I don't know where to go next. I am lost, so I check the world map to choose the next location to bike. Only biking can fix me. But I simply can't make any decision. I can´t find a place in the planet where I felt like cycling.
So I look at Judi with my disgusting, wet-dog-face and ask if I can I follow her 250km into Portugal.
The idea now is to kill some time riding until Porto. There is a main airport in that city. May God help me with inspiration - hopefully I will be able to make a decision and arrive in Porto with a plane ticket to take me and my bike to ride somewhere.
Now it is only me and Judi on the road. I don't know about her, but I have never felt more lonely.


*The four of us in Cycleland, early morning, getting ready to face the mountains




quinta-feira, 11 de julho de 2013

#42. Diarios de Bicicleta/The bike diaries> Random Access to Memories

{English version below}

Santiago de Compostela
27 dias, 2010km em bicicleta

Cansada, tao cansada. Minha perna doi, meu Jesus, mas pelo menos meus joelhos estao bem.
E se voce me der uma cama e meio quilo de macarrao eu ja fico feliz.

Chegar no fim da peregrinacao e uma sensacao tao forte e tao pessoal que eu nao me atrevo a descreve/la aqui no blog. O unico jeito de saber e vindo pra ca.

Sem ilusoes. E bem trash ser cicloturista e vegetariana. Carreguei 1kg de whey protein por 2000km, e alem de pesada, ela fede, e feia e tem gosto do mais puro mal me quer. Mudei minha dieta e comecei a comer frutos do mar na Espanha, porque tenho arrepios so de pensar em enfiar um monte de porcaria processada no meu corpo todoos os dias.
Mas nao vem sem custo.  Fico triste de saber que estou comendo polvo, camarao e lula numa viagem que tem um que de espiritual. Saudades das minhas lentilhas queridinhas.

A melhor novidade da viagem foi que o Daft Punk lancou um disco maravilhoso com um hit que pegou geral na Europa. Em vez de entrar no mercado e ouvir Ai Se Eu Te Pego, em todo lugar que eu estou ta rolando Get Lucky. Melhor do que isso e impossivel.

Meu coracaozinho hipster chorou quando eu quebrei os meus lindos Ray Bans. Por outro lado, meu coracao ciclista deu um sorrisao no dia que eu adquiri meu primeiro par de oculos esportivos. Eles sao lindos, laranjas, confortaveis, diminuem a irritacao no meu olho. So que eu me sinto tao ridicula neles que nao me atrevo a olhar no espelho.
Voce pode sair do hipster world, mas ele nunca sai direito de voce.

Como diz a Judi, meus dias de gatinha ja se foram ha seculos. Bronzeado bermuda e camisetinha na alta, unhas sem esmalte ha dois seculos, e os meus cabelos... sem comentarios. Pra nao dizer nada da sobrancelha e do cheirinho das roupas de ciclista lavadas com xampu.
Mariana, mas pode me chamar de caminhoneira da bike, baby.

Mas nada, nada paga o que a bike faz pelo seu corpinho.
O paraiso e este lugar onde voce perde peso continuamente comendo 4000 calorias por dia.
Bicicleta querida, e por essa e por outras que eu nunca vou deixar de te amar.



Santiago de Compostela
27 days, 2010km on my bike 
I feel tired. I feel so tired. My legs hurt, but my knees are ok.
Give me a bed and 600g of pasta and I am fine.
Living and being happy has never been so simple.

The arrival at a pilgrimage site is such a strong and personal feeling that I don't dare to describe it in my blog. You should try it out yourself.

Not easy to be a vegetarian bike tourer. I carried 1kg of whey protein all the way, and it is heavy, it looks bad, smells bad and specially tastes horrible. I decided to eat seafood in Spain, for the idea of having processed, industrialized protein every single day simply terrified me.
Yet it is not painless. Everytime I think I am eating a cute octopus I feel sad. But the idea of coming back to my chocolate protein makes me feel worse, so I keep carrying on my octopus diet.

My hipster heart broke when I lost my Ray Ban sunglasses. My cyclist heart smiled when I got sporty, orange sunglasses made for cycling.
They are comfortable, they look professional, but I can't stare at mirrors without finding myself the most ridiculous creature on Earth.

Thanks God the Daft Punk has released a great album just before I started my trip. Instead of Ai Se Eu Te Pego, I have Get Lucky playing in every corner. It can't get any better than that.

As my friend Judi puts it, my modelling career is over. I have a funny, cyclist suntan. Don't remember the last time I put on nail polish. My hair is... well, whatever. Let alone shaving and smelling good. Call me bicycle monster, babe.

But... Nothing is better than cycling when it comes to your body. I eat like a monster and don't stop losing weight. God bless my bicycle ride.


terça-feira, 9 de julho de 2013

#41. Diários de bicicleta: dias 10 e 11/The bike diaries: days 10 and 12

[English version below]

Nothing ever stays the same. Nothing´s explained. The higher we go, the longer we fly. Cause this is it for all we know. So say good night to me. Lose no more time - no time - resisting the flow. ['Ohm', Yo la Tengo ]

Dois dias viajando com Judy e os dois bombeiros lindos.
Enfrentamos a etapa mais dura do caminho, montanha tenebrosas, e normalmente eu chego em casa dormindo em pe.
Gosto dos meus companheiros. As vezes nos perdemos nas descidas, mas sem querer nos encontramos 20km depois. Estamos todos por nos mesmos, e em dois dias nos separamos. Existe uma tristeza e um compromisso de liberdade nisso, e por isso nao fazemos planos. Eu gosto disso aqui. E percebo que na vida, tambem.
E um eterno estado de graca, e as vezes sinto que o tempo nao existe. Que nada existe. Que a vida nao passa disso, de um caminho.

Estou a um dia de Santiago e meu coraçao nunca esteve mais leve.
Nao tenho mais medo das montanhas, e agora rezo pra encontrar umas subidinhas.
Nao tenho vontade de matar as pessoas.
Meu joelho se recuperou com banhos diários nos rios mais gelados do mundo.
Conheci tanta gente interessante que parece que 11 dias foram 11 anos. E com meus últimos amigos do caminho aprendi coisas importantes, como: é preciso pedalar sem calcinha/cueca, senao rolam assaduras; o mais importante nao e pedalar 100km por dia, mas sim parar pra enfiar o joelho no rio e beber cerveja, e rir, e dormir na grama; um dia de descanso a cada 7 é essencial, mesmo que voce nao saiba.
Parei de fumar.

E como nao sei o que fazer, e como ja nao tenho casa em lugar nenhum, e como sinto que a unica coisa que consigo fazer agora e andar de bicicleta, decidi que vou continuar pedalando.
Sigo pela costa de Portugal até Lisboa. Mais 1000km mais 15 dias. Depois, quem sabe, pego um aviao pra Berlim e faço mais uma viagem pelo Alemanha.
A diferenca e que agora passa uma coisa diferente. Nao quero pedalar pra resolver nada, nem pra aprender cicloturismo, nem pra explorar o mundo, e nao sinto mesmo que tenho mais que aprender a fazer cicloturismo. Isso eu ja sei, e do meu jeito.
Agora eu me sinto vazia.
Quero pedalar por mim mesma.

Acabam aqui, portanto, os diários de bicicleta da minha viagem pra Santiago. Hora de começar novas histórias.




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Nothing ever stays the same. Nothing´s explained. The higher we go, the longer we fly. Cause this is it for all we know. So say good night to me. Lose no more time - no time - resisting the flow. ['Ohm', Yo la Tengo ]

I´m a day away from Santiago and my heart has never been that light in my entire life.
I´m not afraid of the mountains anymore.
I´m not tired of people anymore.
My knees got better with daily baths in the cold rivers of Galicia.
I don´t remember having met so many interesting people in such a short amount of time... 11 days were worth more than eleven years. My new friends have taught me so much...: you should not ride wearing underwear, 100km a day should not be a goal, you should rest every 7 days or so.
I quit smoking for good. I don´t change my love for mountains for any cigarette in the world.

As I have no home, and as I don´t know what to do, I will keep cycling. I will follow the coast of Portugal, at least 1000km more. After that, I might cycle in Germany. starting from Berlin.
Now I´m not cycling to find out about myself or to sort out my stuff. I am not cycling for the adventure, and I don´t feel I need to learn something.
I´m just cycling by myself.
That´s the end of these bycicle diaries about my journey to Santiago de Compostela. Time to start writing new stories.


domingo, 7 de julho de 2013

#40. Diários de bicicleta, dia 9: welcome to Cycleland

[English version below]
Dia 9
 Rabanal del Camino-Vega del Alcarce, 60km montanhas e, banhos gelados no rio e bombeiros de shortinho
Hoje eu acordei no maravilhoso mundo das bicicletas. O albergue está lotado, e enquanto eu sento no balcao para tomar meu café da manha acabo assistindo a cena mais linda de todos os tempo: uma dezena de ciclistas lavando suas bicis, colocando óleo na corrente, ajustando os freios.
Tenho que admitir que neste ponto da viagem já descobri que nao tenho a mínima paciencia para os peregrinos que vêm fazer o caminho de Santiago de Compostela a pé. Os caminhantes estao sempre meio obcecados com El Camino, como se ele fosse algo exterior, e nao uma metáfora pro caminho de dentro. Contam quilômetros, fazem observaçoes hippies sobre viagens interiores... Xaropices. Nao consideram os ciclistas como verdadeiros peregrinos. Eu chego no albergue no fim da tarde podre de cansada, fedorenta, querendo um chuveiro e 800g de macarrao com ovo e eles estao lá, plácidos, cara de vaca no pasto, lendo um livrinho e viajando nos seus diários místicos. Acordam às 5:30 e saem às 6, no máximo. Ah, nao!: é muita caretice, sao princípios demais pra mim.
Os ciclistas nao. Estes aí que estao na minha frente tao na onda boa, rindo, montando os alforges, morrendo de medo das etapas de montanha que comecam hoje.
Acho lindo.
Me sinto em casa com eles, e prometo pra mim mesma que vou entrar num grupo de ciclistas assim que voltar pra casa, onde quer que a minha casa seja no próximo ano, seja lá quando eu volte.

Você sabe que o dia vai ser bom quando você olha no relógio, sao 8 da manha e voce ja está subindo a montanha com um bombeiro lindo espanhol e bronzeado que vive nas Canárias.
Fica melhor ainda quando você saca que pedala tao rápido quanto ele, e que é muito mais rápida que todos os amigos gatinhos dele que ficaram pra trás.
Mas ele chega no ponto do definitivamente maravilhoso quando você esta, Judy vindo atrás com o outro colega bombeiro, vocês encontram um frio gelado e se enfiam dentro pra desinflamar a musculatura e continuar seguindo a segunda metade do dia. No fim do dia vocês estao num hostel juntos, e alem de voces nao ha mais ninguem.
Entao aqui estou eu, em Cycleland, com uma amiga americana da minha idade que esta pedalando pela America do Sul e Europa há sete meses, dois bombeiros espanhóis lindos, jantando num hostel da Espanha que me custou nada mais que 5 euros, e tomando um vinho igualmente barato.
É o que eu tenho para hoje, meus amigos.

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Day 9
  Rabanal del Camino-Vega del Alcarce, 60km


Today I woke up in cycle land. The hostel is full, and as I sit by the counter to fix myself some breakfast at 7 a.m.I see they are all there: a dozen of cyclists cleaning their bikes, oiling their chains, repairing their brakes.
I have to say I that by now I found out I´m really not into the pilgrims that come to make their way to Santiago on their feet. The walkers are usually absorbed in their hippie view of the path, obsessed with El Camino as if it was outside them, instead of a metaphor to an inner path. You usually arrive at the hostels from a hard bike ride, tired, smelly, crazy for a shower and a HUGE amount of pasta and the hikers are peacefully reading and writing their diaries over a cup of tea. Too uptight, way too many principles: they´re usually up at 5.30 a.m. and gone at 6a.m. tops.
The cyclists I see in front of me, on the other hand, are just having fun and laughing, freaking out about today and tomorrow. They know the hard days in the mountains are just beginning.
I find it beautiful.
I feel I finally found my group here.
I feel definitely home and I promise I will join a cycling group whenever I get home, and wherever my home happens to be.
And God!, they´re really fucking good-looking in these tight shorts.


You know it´s going to be a great day when you look at your watch, it´s 8 o´clock in the morning and you´re riding up the mountain with a cute Spanish firefighter suntanned from the Canarias.
It´s even better when you ride as fast as him and faster than all the others, and then you realize you´re as strong in the bike as a good-looking fireman.
But it gets truly amazing when you´re coming donwhill with him, Judy and his friend behind, and you all hit a cold river, put on your swim swits and face the horrible cold water to recover your muscular strength and get going. Coming out of the river, you decide to book a hostel together, and as you get at 7 p.m. there you are the only ones in the place.

Today I´m stuck in middle-of.nowhere Cycleland with an American woman my age who´s been cycling in South America and Europe for 7 months now + two firemen from the Canarias, in a hostel in sunny Spain that costs me 5 euros a night. we had amazing food and a bottle of wine for equally nothing.
That´s all I have to say for the moment.

sábado, 6 de julho de 2013

#39.Diários de bicicleta, dia 8/The bike diaries, day 8: Fuck the pain away

[English version below]
Dia 8/Day 8
 Léon-Rabanal del Camino, 60km

 Onda de calor na Espanha. Pedalo 60km em 6 horas. A bicicleta nao vai pra frente porque o asfalto está literalmente derretendo.

Sigo os rappers, paramos e eles cozinham tortilla. Ah!, como eu amo a Espanha. No caminho pesco Judy, uma New York do Harlem ques está viajando de bicicleta há seis meses.

Descubro uma rede de albergues pra ciclistas, e quando chego em Rabanal del Camino encontro todos os meus companheiros de duas rodas, bebo cerveja e saio pra olhar o céu cheio de estrelas nesta cidade minuscula.

Fuck the pain away.
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There´s a wave of heat in Spain now. I cycle 6km in 6 hours and it is so hard, for the asphalt is literally melting down and the bicycle almost does not move.

I go with the rappers, and at some point they stop by to cook some tortillas. God, how I love Spain... In the way I meet Judy, from Harlem, who´s been on a bike ride for 7 months now. God, how I love New York.

By accident I find out a network os hostels designed specially for cyclist. In the hostel at Rabanal del Camino I meet thousand of 2-wheel partners, I´m so happy, I go for a walk in the mountains, stare at stars and feel I never want to leave this place. A beer before going to bed.

Fuck the pain away.


sexta-feira, 5 de julho de 2013

#38. Diários de bicicleta, dia 7: mais rápida que o tempo/The bike diaries, day 7: faster than time

[English version below]
Dia 7
Carrión de los Condes-Léon, 110km, velocidade média de 25km/h

Nao estou interessada em conversar, nem saber de onde você veio, nem em trocar meu português pelo seu francês. O que eu quero hoje é sair daqui e pedalar até a cidade que fica para além do trigal marvado. Questao de sobrevivência.

Entao eu vou. Nem me atrevo na estrada de peregrinos, no ¡buen camino! com os caminhantes.  No poderoso mau humor que estou, minha bad vibe pode espalhar pra geral e todo mundo amanha ainda acaba acordando com tendinitie.  Assim é que eu desvio logo de cara, evito todas as flechas que indicam a trilha e pego a estrada nacional, 110 km planos e entediantes até Léon.

Ah!, gloriosa, objetiva, lisinha, vazia, calorenta e asfaltada N-120... Nunca ninguém te amou tanto como eu te amei hoje.

Pedalo. Pedalo, pedalo, pedalo. E quando minha mente começa a caminhar pelos vales tenebrosos dos meus medos e rancores, aí entao é que eu pedalo mais e mais rápido. Nao me atrevo a descer, a nao ser para pegar água e fazer xixi a cada 20km. O calor está insuportável, mas eu nao sinto nada, minha mente sao as minhas pernas. Como na bike, escuto todo o Abbey Road, ouço três discos do Daft Punk e um do Kraftwerk.

Eu atravesso os espaços vazios como se atravessasse o próprio tempo parado, e às vezes tenho a impressao de que entrei em outra dimensao, que estou sonhando. Ninguem me vê, eu nao vejo ninguém, mas sou de repente uma com a bike, com o presente, com o meu corpo e com minha mente, que agora está aqui, comigo, concentrada neste ùnico lugar e nesse esforço que é existir.

Se você pedala longas distâncias, acho que você conhece essa sensaçao.
Se nao, minha sugestao é que você aproveite que amanha é sabadao e saia pra meditar com sua bike logo de manhazinha.


Chego no albergue em Léon e dois espanhóis do hip-hop - um rapeiro, outro b-boy - se jogam na minha frente pra conversar. Sao ciclistas tambem. Eles sao os maiores sem grana da face da terra e me convidam pro programa mais bucha que pode existir: uma farofa esplêndida. Levando na mao algumas sacolinhas plasticas com frigideira, talheres, pratos e afins, os dois estao saindo pro parque da cidade para cozinhar um pacotinho de peito de frango no fogareiro que eles trazem na bagagem, já que neste albergue aqui nao tem cozinha e eles nao tao afim de gastar dinheiro com o menu peregrinos de 9 euros.

Passo no mercado e compro uma garrafa de vinho de 3 e 50. Sentamos embaixo da árvore e começa a cozinhaçao, fumaça pra todo lado, o frango rolando solto na frigideirinha enquanto eu, vegetariana, assisto e converso morta.-de-fome, um pedaço de pao puro na boca.

Vamos convir aqui comigo: maior reconciliacao com a humanidade do que esta nao há de existir.

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Day 7
 Carrilón de los Condes-Léon, 110km, average speed 26km/h

 I´m in such a bad mood that I decide the only thing I can do is cycling. I don´t want to see anyone, I don´t want to talk to anyone, I don´t want to ¡buen camino! any of you bloody pilgrims. I'm definitely away from the hikers' path today; I'm in the mood for a paved and objective, road-biker-like, straight forward national road full of cars and nobodies.

My dear, beloved, glorious, boring, flat, Spanish national road number N-120! - nobody has ever loved you more than I did today.

Because I cycled you with all my heart, as if there was no tomorrow, begging you to take me away from the lands of boredom, and every time I felt resentful or sad, and every moment my thoughts wandered in the lands of sorrow (they were so many), then I cycled on your pavement even faster and even stronger, as if my legs could replace my mind, as if my body could anchor me somewhere else, somewhere light, somewhere good. Somewhere present.

So I did not leave my bike except to get water and to find restrooms, and in the 30 degrees of the Spanish summer I went as fast as if I was crossing time itself, and in going on like this for so long and so fast, I felt I became the Way itself, one with the moment, one with the only task of putting my body and my mind in service of the task of existing.



I arrive in Léon and two Spanish, hip hop cyclists jump in front of me. They are broke and don´t want to spend 9 euros in the Pilgrims Menu, so they invite me to go to the main city park. They have a bag with a pack of chicken that they will cook it with their camping tools. I say yes, get ourselves a bottle of wine and follow them and their chicken to the city center.

And here I am, vegetarian, starving, with a piece of plain bread in my mouth, watching these two funny guys as they prepare their chicken under a tree and laughing at their amazing stories about the hip hop scene in Spain.

If that is not my reconciliation with the humankind, then I have no idea about what reconciliation might be.